Percepções do Brasil e suas cidades – Sob o olhar de Javier Bernardini

Agora, foia vez do Javi (Javier Alejandro Bernardini) aluno de Arquitetura que passou mais de dez meses morando no Brasil, falar um pouco sobre as suas percepções com relação às cidades brasileiras. Mais do que isso, ele consegue captar a essência das nossas cidades através dos edifícios, monumentos, parques, praças, praias e paisagens. Eu deixei algumas “diferenças” gramaticais, para dar um ar mais pessoal ao texto que ele escreveu. Assim, todos podem perceber também as peculiaridades da mescla que carinhosa (e até instintivamente) fazemos entre português-espanhol (muito conhecido como portunhol)

Javi

Diversidade. Heterogeneidade. Mistura. Amalgama. Crisol. Qualquer uma dessas palavras pode utilizar-se para definir Brasil, sua sociedade e suas cidades. Tomar noção do tamanho que tem esse país tropical só é possível recorrendo-o. Assim, é possível conhecer cidades tão diferentes como Rio de Janeiro e São Paulo; Brasília e Curitiba; Belo Horizonte e Ouro Preto.

Em geral, nos centros das cidades, sejam cidades pequenas como Altinópolis no interior de São Paulo ou grandes e internacionalmente conhecidas como Rio de Janeiro, as cores se expressam livremente. Lojas com muros vermelhos, azuis, verdes, amarelos e laranjas convivem e até ficam no mesmo quarteirão.  É interessante a liberdade para conceber as construções da cidade, sem regras restritivas (exceto as construtivas) e sem prejuízos. Mas ¿Cadê a homogeneidade e coerência de linguagem? Aqui não tem, é só diversidade, reflexo da sociedade.

Brasília tentou negar essa realidade brasileira criando uma cidade totalmente planejada e com uma imagem totalizante. ¿Resultado? Fracasso do modelo urbano sem poder cumprir o principal objetivo utópico do Plano Piloto de Lucio Costa: mudar a realidade política, social e econômica do Brasil, só através de um modelo urbanístico e arquitetônico moderno e revolucionário (ignorando todo tipo de estudo sociológico).

Brasília

Uma das cidades “menos brasileiras” que conheci foi Ouro Preto. Seus regulamentos impedem construir com total liberdade, devendo respeitar a linguagem barroca que tanta beleza lhe da ao centro histórico. Assim, a unidade na percepção da cidade se percebe facilmente: paradoxalmente, por ser uma cidade criada espontaneamente pela presença de ouro e a ambição sem limites dos portugueses que não tinham como objetivo fazer uma cidade bonita e arrumadinha do jeito que ficou. Igualmente, no mesmo tempo é uma das cidades mais brasileiras, porque reflete fielmente o estilo de uma época em um momento histórico muito importante no Brasil.

Ouro Preto

Na reserva de Inothim, no Estado de Minas Gerais, também senti que não estava no Brasil, ao ser um espaço restringido para uma elite (negando a realidade brasileira) e tendo um nível de manutenção incrível. Mas no mesmo tempo, tem a maior variedade de palmeiras no mundo. ¡É Brasil!

Palmeiras

Rio de Janeiro é o exemplo mais maravilhoso do convívio perfeito entre construção e natureza. Simbioses total.
Mas o plano do chão, também é desenhado no Brasil. Depois do reconhecimento das calçadas de Copacabana feitas pelo grande paisagista Burle Marx, a perspectiva dos pedestres ao recorrer a cidade é considerada de resultados satisfatórios, embora infelizmente não seja tratada integralmente.

Cidade Maravilhosa

Por outro lado, curtir um parque deste paisagista pode ser uma experiência muito brasileira: vegetação nativa, contraste de cores, beleza natural e curvas- tão difundidas por o reconhecido arquiteto Oscar Niemeyer e justificadas por ele mesmo ao ser o reflexo das paisagens e mulheres de Rio de Janeiro. Por essa grandiosidade da sua obra é que temos parques dele na cidade carioca, Curitiba, Brasília, o emblemático Parque Ibirapuera em São Paulo, e em muitas cidades mais.

Do mesmo modo, admirar um mural de Cândido Portinari pode te ensinar muito do Brasil, desde a importância de São Francisco de Assis na realidade colonial até quem foi Tiradentes. É tão importante como os famosos “muralistas” mexicanos Diego Rivera, Siqueiros e Orozco na realidade do país asteca. Ele foi quem consagrou a “pastilhera” (pastilha) como elemento decorativo fundamental na arquitetura brasileira moderna. E provavelmente são uma não feliz consequência disso os pequenos bares céntricos e de bairro totalmente revestidos de “pastilheras”, preferindo uma rápida higienização do local ao invés de uma agradável sensação para os usuários.

Cândido Portinari

Mas então, ¿Que imagem eu tenho do Brasil?¿A modernidade de São Paulo e suas rodovias e prédios de primer mundo?¿A agradável escala humana e o pitoresquíssimo Ouro Preto?¿As paisagens maravilhosas do Rio de Janeiro e suas belas praias?¿O avançado transporte público e as políticas ambientais de Curitiba?¿A bela arquitetura moderna de Brasília?¿Ou a cracolandia em São Paulo?¿Ou as favelas e cortiços de Rio de Janeiro?¿Ou a nível de vida nas periferias das cidades?¿Ou a desigualdade social “siempre” presente?

Só uma mistura de todo isso. Uma grande mistura com 200.000.000 de motivos para explicar-lá.45147_10151113616446146_1793098198_n

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