Carta de Repúdio ao black face no Festival de Marchinhas de Ubatuba

O Coletivo Afrobrasilidades – Articulação Negra de Ubatuba – vem por meio desta carta apresentar sua indignação e repúdio ao black face apresentado pelos artistas Julio Mendes e Claudia Gil durante o Festival de Marchinhas Carnavalescas de 2018. A apresentação de duas músicas, pela dupla, inscritas no evento contou com essa “performance” historicamente opressora e racista e, como se não bastasse, o corpo de jurados do festival  premiou  uma delas como melhor fantasia dentre as demais apresentadas.

Diante de tal situação, que mais uma vez coloca o negro enquanto ser ridicularizado, como elemento à margem da sociedade, carregado de chacota, estereótipos e demais estigmas de um país que viveu séculos de escravidão, nós, ativistas desse movimento negro, nos colocamos perante a Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba – FundArt e à esses artistas para evidenciar que tal ato é violento.

Qualquer tipo de coisa que venha menosprezar a raça negra ou que possa ser caracterizado injúria racial são crimes previstos em nossa legislação (Lei nº 7.716/89).

Amparados pela Constituição Brasileira que prevê pena de reclusão por atos racistas, exigimos que tal prêmio seja revisto e retirado pela FundArt, além de retratação pública por parte dos artistas em questão e do poder público.

Reconhecemos, enquanto coletivo negro, os trabalhos culturais realizados pela FundArt e sabemos da notória importância de Julio Mendes e Claudia Gil no cenário artístico de Ubatuba, principalmente no que tange a cultura caiçara, no entanto, por mais que o uso da blackface possa não ter, nesse caso, a intenção de rebaixar ou ofender ninguém, não quer dizer que não o faça. Ademais, quando se trata do órgão gestor da cultura no município, combater esse tipo de manifestação racista, por essência, deve fazer parte de sua política cultural cotidiana, por isso, nosso questionamento se encontra também no fato de que até o atual momento a mesma ainda não se posicionou.

Para maiores informações, nos colocamos a disposição para falar abertamente sobre o assunto com local, data e horário a ser definido em comum acordo entre o coletivo, os gestores da FundArt e artistas que se apresentaram. Queremos, mais do que tudo, ampliar os olhares e promover a compreensão sobre as questões ligadas à luta do movimento negro dentro e fora do espaço artístico, para assim, contribuir também com a arte e cultura local.

Vale ressaltar que o objetivo original do black face era não somente a humilhação do ser negro através de uma caricatura exagerada, mas também impossibilitar que indivíduos negros fossem capazes de representar a si mesmos, sendo uma forma pouco sutil e muito eficaz de manter atores negros longe dos palcos. O black face retrata de maneira esdrúxula o indivíduo negro, com reforço de estereótipos criados e perpetuados pelo homem branco, numa tentativa de padronização dos nossos corpos, dos nossos cabelos e da nossa pele.

Quando trazemos esse contexto para o cenário brasileiro e fazemos uma analogia à personagem carnavalesca Nega Maluca temos um agravante na história: a caricatura de uma mulher negra, hiperssexualizada, encarada como moeda de troca para o turismo sexual. O black face dos Estados Unidos reforça o estereótipo do negro ridicularizado, a Nega Maluca do Brasil reforça o estereótipo da “mulata exportação”.

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De acordo com o site “History of Black face”, o blackface começou quando homens brancos se caracterizavam de homens negros escravos ou livres durante a era dos shows dos menestréis (1830-1890) e essas caricaturas tornaram-se fixas no imaginário americano reforçando estereótipos. Por conta disso, essa carta tem como objetivo repudiar toda e qualquer ação difamatória, opressora e que reforce o maior crime já praticado contra a humanidade: a escravidão.

Sabemos da possibilidade do blackface invocando às tradições circenses, onde a “máscara” já foi muito utilizada, no entanto temos que considerar que historicamente ela faz parte de um conjunto de mecanismos que tinham por intuito tão somente inferiorizar a figura do negro e tal intuito não mudou ao longo do tempo. Em muitos casos, além da pintura na face, acentuavam-se os lábios do ator e dessa forma comediantes levavam plateias brancas e aristocráticas ao delírio. As peças eram geralmente de chacota e o foco da risada: o personagem “negro” e o público alvo: sulistas estadunidenses em sua maioria, ex escravistas.

Julio Mendes é professor de Matemática, na Escola Estadual Maria Alice Alves Pereira, e justamente por sua trajetória acreditamos que deva ponderar tal prêmio, pois ainda que sem intenção cometeu uma ação ofensiva que reforça práticas racistas corriqueiras. O Blackface é uma atitude que ofende, subjuga, recoloca o negro em um lugar passível de ridicularização que é anacrônico, pois vivemos um momento de reivindicações e de conquistas – na contemporaneidade não há lugar para essa forma de estética.

Vale lembrar que o preceito fundamental da liberdade de expressão não consagra o “direito à incitação do racismo”. O negro e/ou a negra não são fantasia!

De 1989 para cá, outras leis importantes na luta contra o preconceito racial foram criadas no Brasil, como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm) e a Lei de Cotas (2012) (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm).

Estamos no aguardo de um posicionamento oficial.

Coletivo Afrobrasilidades – Articulação Negra de Ubatuba

15 de fevereiro de 2018

Carta redigida coletivamente por integrantes do movimento negro de Ubatuba e protocolada hoje, dia 15 de fevereiro na Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba. 

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Conheça a Nhandereko, Rede de Turismo de Base Comunitária do Fórum de Comunidades Tradicionais

A Rede de Turismo de Base Comunitária avança e se consolida cada vez mais no território como uma ferramenta de luta de pessoas e comunidades tradicionais de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba

Poder contar sua verdadeira história e realidade, criar redes, fortalecer, gerar renda, empoderar e promover cada vez mais um novo olhar para o turismo de uma das regiões mais bonitas do Brasil. Mostrar que além das paisagens exuberantes, há comunidades tradicionais, saberes ancestrais, povo lutando em busca de garantir seus direitos ao território, cultura, educação e educação, sobretudo, pelo direito de continuar seus modos de vida em cada local. É NÚMERO DO NÚMERO DO NÚMERO DE DIREITOS DA BASE NA COMUNICAÇÃO DE COMUNICAÇÕES COMUNICADAS (FCT) Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba.

Uma Rede de comunidades envolvidas com o TBC é antiga, como primeiras iniciativas são de 2003. A partir de 2016 por meio da realização dos Partilhas em Turismo de Base Comunitária, diversas ações de colocações em andamento nas comunidades articuladas pelo Fórum de Comunidades Tradicionais – FCT , que passaram a se encontrar e compartilhe suas vidas dentro do turismo. Inicialmente com apoio da Fiocruz através do Observatório dos Territórios Sustentáveis ​​e Saudáveis ​​da Bocaina (OTSS), 17 comunidades dos três municípios passaram a se articular com mais frequência.

 “O TBC é uma possibilidade de resistência no território, faz com que uma comunidade pode se olhar”, pontua Maria Guadalupe da comunidade caiçara de Trindade (RJ). A iniciativa, reúne diversas comunidades, empreendimentos coletivos, indivíduos e familiares e consolida de maneira intensa sem audiência, e é patrocinado por comunidades da região como uma ferramenta de luta contra uma defesa de seus direitos.

 Em 2017, uma ideia de criar uma central de comercialização de produtos e serviços em turismo de base comunitária da Rede, como estratégia para ampliar sua capacidade comercial e de comunicação, conquistou um prêmio do DESAFIO BIG. O apoio permitiu continuar o processo de discussão e aprofundamento dos conceitos, estabelecer uma base para o funcionamento da Rede, bem como construir uma proposta coletiva de modelo para negócios para Central. Também faz parte dos objetivos do projeto: criar um site, inclusive o carteira on-line, produtos e serviços oferecidos por três comunidades (Trindade, São Gonçalo e Campinho) e realizar testes de teste na parceria com agências de turismo.

 A partir dos resultados do processo, foi possível também, mobilizar o apoio da Prefeitura Municipal de Paraty e da APA Cairuçu para as oficinas de formação.

 Três oficinas foram propostas pelo projeto – em cada uma das comunidades citadas acima – e dentre estas atividades, como Trindade e São Gonçalo já foram realizadas. Confira na sequência, registros dos momentos de intercâmbio, fortalecimento e construção dos princípios de irão nortear a rede Nhandereko.

 Luta e formação na construção coletiva dos princípios e conceitos do TBC

 “O TBC pra gente hoje é auto-reconhecimento da cultura, das nossas tradições, coisas que funcionam perdidas ao longo do tempo e turismo de base comunitária vem resgatar isso dentro da comunidade”, destaca Vaguinho liderança da comunidade caiçara de São Gonçalo em Paraty ( RJ). Como oficinas para uma criação e consolidação da Rede Nhandereko tem como uma proposta de criação de empreendimentos como lideranças e propiciações para um parto de conhecimentos, nos quais são princípios e conceitos são alinhados.

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 Segundo ele, o TBC promove sobretudo o fortalecimento da luta dentro do território e geração de renda. “Mas mais do que tudo representam uma preservação da nossa tradicionalidade ao longo dos anos vem sendo consumado pelo turismo de massa no município de Paraty e nas comunidades tradicionais”, completa. Como oficinas promovem o encontro de cerca de 25 comunidades de 12 comunidades envolvidas não processam a construção coletiva de diretrizes, sonhos e planos para rede de TBC.
Na Oficina em São Gonçalo além de vivenciar e levantar elementos para roteirrização de produto, o grupo de discussão para o modelo de negócios mais adequado para a central de comercialização, o conceito de governança local, como uma democracia interna, uma comunicação e participação. Como atividades do projeto buscam, sobretudo, fortalecer o protagonismo das associações locais, por exemplo, da Associação de Moradores de São Gonçalo.
Turismo de Base Comunitária e nosso jeito de ser

“A identidade é o sentido de se reconquistador, é a nossa identificação como indígena. Esse é o modo de fazer como coisas, esse é o modo de ser indígena. Nas comunidades tradicionais são sua cultura e seu modo de ser, é uma identidade cultural de todos “, pontua Júlio da aldeia Sapukai de Angra dos Reis. Nhandereko é uma palavra Guarani e seu documento explicativo com precisão o que queremos compartilhar com os visitantes: “o nosso modo de ser”.

O roteiro e os saberes de Trindade

Na comunidade caiçara de Trindade durante os dias 3 e 4 de outubro aconteceu a oficina com objetivo de impulsionar a criação de princípios, conceitos e diretrizes da rede. Os comunitários do FCT experimentaram durante os dois dias de evento o roteiro de turismo de base, disponibilizados por trindadeiros que receberam caiçaras, indígenas e quilombolas de diversas comunidades dos três municípios.

A oficina teve início na Sede da Associação dos Moradores de Trindade (AMOT) e logo em seguida, os participantes seguiram até o Rancho da Associação de Barqueiros de Trindade (ABAT), na Praia do Meio. De lá tomaram o barco para visitar e conhecer o cerco flutuante, podendo aprender mais sobre uma lida de pescadores locais que mantêm uma tradição da pesca artesanal.

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 A visita foi finalizada com um passeio pela piscina natural da Praia do Caixadaço de um almoço com uma culinária tradicional local. Na parte da tarde, o roteiro foi concluído com uma roda de conversa com os trindadeiros Dário, Robson e senhor Vitor, considerado o último mestre canoeiro da comunidade. O mestre e os mais jovens iniciaram uma roda de conversa, trazendo contos e causos da comunidade. Relatos do período em que o era local habitado pelos indígenas, uma história do nome desse lugar, uma luta dos trindadeiros para manter seu território e muitos outros momentos históricos e marcantes de Trindade foram compartilhados com os presentes.

“Eu notei uma simplificação com o nosso Quilombo, pois há algumas famílias que não são abandonadas ou locais, uma força da resistência”, comenta Marilda, liderança do Quilombo Santa Rita do Bracuí, de Angra dos Reis sobre uma permanência e luta dos trindadeiros na comunidade. “Uma organização comunitária, um união, uma visita ao cerco, o feitio do remo, uma vivência toda”.

Fonte: Comunicação Popular FCT-  Preservar é Resistir

Confira a Programação da Festa do Fandango Caiçara de Ubatuba

O Grupo Fandango Caiçara de Ubatuba por meio do Projeto “Ô de Casa: Mobilização, Articulação e Salvaguarda do Fandango Caiçara” Iphan-MinC apresenta a Festa do Fandango Caiçara de Ubatuba, que acontecerá nos dias 8, 9 e 10 de dezembro no Sobradão do Porto e na comunidade caiçara da Barra Seca.

O evento faz parte das ações que marcam os 5 anos do registro do Fandango Caiçara como patrimônio cultural brasileiro. Fará parte também da programação a eleição dos membros que irão compor o Comitê Consolidado da Salvaguarda do Fandango.

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Em Ubatuba a Festa conta com o apoio da Prefeitura Municipal de Ubatuba, FundArt, da AARCCA, Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), Observatório dos Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), Instituto Argonauta, Rochinha do Basquete, Comtur e Instituto Bacuri.

Oficinas, apresentações, rodas de conversa e muitas outras atividades fazem parte da programação e todas as atividades do evento são abertas e gratuitas.

A organização informa que para os moradores da região norte de Ubatuba haverá uma linha extra de ônibus VerdeBus saindo às 2h da manhã.

Confira abaixo a programação!

8 de dezembro – sexta-feira
Sobradão do Porto
10h Abertura das exposições
11h – Oficinas
15h – Roda de conversa
17h – Lançamento da Campanha do FCT+10 – Fórum de Comunidades Tradicionais – Angra, Paraty e Ubatuba
19h30 – Abertura oficial com a Folia do Divino de Ubatuba
Encontro de contadores de causos
20h – Apresentação dos grupos de dança
22h- Baile

9 de dezembro – sábado
Praia da Barra Seca
10h – Vivência da canoa caiçara – “Ato pela salvaguarda da canoa caiçara”

Sobradão do Porto
14h00 Reunião do Comitê Provisório de Salvaguarda do Fandango Caiçara (IPHAN)
16h30 Reunião do Comitê Gestor Permanente

20h – Apresentação dos grupos de dança
22h – Baile

10 de dezembro – domingo
Sobradão do Porto
11h – Oficinas
12h – Almoço de encerramento com fandango

Minha beleza negra: cabelo, percussão e autoestima fizeram a abertura da Semana Negra Namaskar

Da cabeça ao coração: oficina de cuidados para os cabelos afro e percussão afro-brasileira fizeram a programação do primeiro dia da Semana Negra Namaskar. O evento organizado por educadoras do projeto vai trazer entre os dias 26 a 2 de dezembro diversas atividades como forma de trabalhar a importância da semana e do mês da Consciência Negra no Brasil.

Autoestima: encontro com a beleza que mora em mim 

A manhã  do dia 26 de novembro começou com uma roda de conversa com Sá Ollebar e Luara Oliveira, mulheres negras, que, atualmente trabalham com moda e beleza negra. Crianças, adolescentes e mulheres negras do Sesmaria e de outros bairros da cidade estiveram presente ouvindo e compartilhando relatos sobre seus cabelos.

Em seguida, o galão de oficinas do projeto se transformou num salão de beleza (negra) e as duas começaram a cuidar e ensinar como se cuida das cabeças crespas e cacheadas que estavam presentes. As meninas mais novas, eufóricas com os aprendizados, puderam conhecer mais sobre a própria beleza num encontro mágico. Um dos resultados mais emocionantes da manhã: duas meninas do projeto cortaram as pontas alisadas do cabelo em transição – assumindo os crespos reais das suas cabeças. Muitas outras saíram mais que realizadas ouvindo e vivendo esse momento.

Fitagem, hidratação, nutrição, receitas caseiras e muitas outras formas de cuidados com o cabelo crespo e cacheado foram ensinadas por elas. Tudo aquilo que não se vê ou se aprende com a mídia ou com cosméticos que pouco valorizam a beleza negra e a falta de incentivo por conta dos padrões de beleza que predominam num Brasil  negro (apesar de negar) foi falado e apontado por essa mulheres como fatores que diminuem a autoestima e fazem com que grande parte dos crespos sejam alisados.

Luara e Sá mostraram para as mulheres e homens presentes que precisamos, sobretudo, aprender a cuidar dos nossos crespos, além de amar e compreender que levantar o black é também um ato de resistência e de luta contra o racismo no Brasil.

De onde vem os tambores?

Na parte da tarde, o projeto se encheu para receber a educadora e percussionista Jamila Prata promoveu uma oficina de ritmos afro-brasileiros. Revesando nos instrumentos, as crianças, jovens e adultos presentes puderam aprender um pouco sobre o afoxé, o samba e o samba-reggae.

Jamila aproximou a África e o Brasil, contando sobre história e a origem dos tambores e suas diversas formas de habitarem essa terra e a importância de resgatarmos a nossa ancestralidade em cada manifestação cultural que conhecermos e/ou vivenciarmos.

As crianças e jovens batucaram, mostrando também seus conhecimentos anteriores de música (pois fazem a oficina Ubatuque com o prof. Dutra no projeto) e Jamila conduziu um momento cheio de animação e aprendizado.

A programação da Semana Negra Namaskar continua, confira abaixo e participe!

CARTAZ NAMASKAR

Cia. Benedita na Estrada se apresenta em Ubatuba neste fim de semana!

Três espetáculos diferentes serão apresentados neste final de semana em Ubatuba. A Cia. Benedita na Estrada desembarca nesta sexta-feira e a primeira apresentação, a obra “Diversifica – histórias e brincadeiras pra gente ser quem é” será realizada no Campinho da Ressaca, às 18h30 e conta com a contribuição consciente no chapéu.

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Sábado, dia 11 de novembro, o espetáculo “A Volta do Mundo é Grande” será apresentado no Shabda Om. Os ingressos serão vendidos por 10 reais (inteira) e 5 reais a meia entrada.

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Domingo, dia 12 de novembro, quem recebe a companhia é o projeto Gaiato, no Ipiranguinha. A apresentação será aberta ao público e também conta com a contribuição consciente no chapéu.

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Yuna, a história do nosso parto

Segue o relato da minha experiência com o parto da Yuna. Espero que essa história possa reverberar nas mulheres  que buscam o parto humanizado como a porta de entrada para o imenso (e intenso) mundo da maternidade.

Onde o nosso parto começou?

A notícia da minha gravidez demorou pra ser contada, esperamos aqueles três primeiros meses passar para compartilhar a notícia com família e amigos. Ainda que, algumas amigas próximas olharam para minha cara e jeito e adivinharam a gestação. Foram elas também que indicaram a equipe que acabamos por escolher para o parto da nossa bebê. Desde o começo escolhemos que o parto seria em casa, e a equipe Omane foi a mais recomendada por essas amigas.  As enfermeiras obstetras nos passaram a segurança que precisávamos para topar a empreitada e enfrentar tudo que viria depois dessa escolha. Durante meses frequentamos as consultas de pré-natal com palestras sobre o parto, nascimento, puerpério, e muitos outros temas que nos fizeram dia-a-dia mais seguros e preparados para o universo incerto que teríamos pela frente.

Os livros sobre parto brotaram em nossas mãos e deixei qualquer outra leitura de lado nesses tempos. Lemos muitas coisas, ouvi relatos de partos e tentei filtrar o que cabia a mim ou não. Afinal, saber separar cada uma das histórias e construir a nossa própria trajetória é fundamental nessa hora. Aprendi a dizer nãos mais vezes e entender que parir é um processo mais mental do que físico. No começo até quis me obrigar a fazer exercícios que não faziam parte da minha rotina. Só depois entendi (com a ajuda das palestras) que o que o meu corpo fazia, as pedaladas e demais atividades já cumpriam a parte de me ajudar em todo esse processo. Aos poucos fui entendendo que não havia manual, o que há sim era uma necessidade profunda de conexão entre eu, meu bebê e meu companheiro. E que era essa sintonia que seria fundamental para esse dia.

Com doula

O tempo realmente voa durante a gravidez, e ao mesmo tempo em que começamos a programar os chás de bebê – no mês de setembro – já no oitavo mês sentimos que a presença de uma doula seria também fundamental, já que se tratava do meu primeiro parto. Anna Gallafrio apareceu e coube em nosso momento, compreendendo também o que eu buscava. Sua presença no cotidiano do nosso grupo de teatro fez com que eu entendesse que essa função estava totalmente ligada também a intimidade e a capacidade de fazer com que eu me sentisse à vontade. A doula, ao meu ver, precisava ser alguém com quem eu pudesse me expressar de toda e qualquer forma,  para que esse momento de abertura e nascimento pudesse acontecer.  Nesse curto caminho até a chegada da Yuna, em uma carona de volta pra SP, recebemos dela o presente de dar carona para Dominique Sakoilsky, autora do livro “Os Sete Segredos do Parto”.  E, durante nossa volta pra Ubatuba pudemos aprender um pouco mais com elas sobre todo esse movimento do nascer. O livro também foi fundamental pra me ensinar mais sobre as mudanças que estavam pra acontecer na nossa vida e, sobretudo, no meu corpo. Agradeço a essas duas doulas que trabalharam física e espiritualmente para que o nosso parto acontecesse.

A virada de setembro pra outubro

O começo de outubro anunciou pra gente a chegada da 37ª semana de gestação. Eu comecei a sentir nosso bebê surpresa cada vez mais perto e meu corpo começava a dar sinais de que o parto não demoraria. Ainda que entender o tempo do bebê, do corpo grávido e de tudo que vem junto com uma gestação e com o parir, fosse pra mim a maior de todas as missões desse processo. Eu, consciente da minha ansiedade que chega a ser sobrenatural, tomei a gravidez como propósito pra entender outros tempos, ouvindo cada movimento e mudança do corpo e sentindo o estado de graça que é gerar um bebê dentro da gente (sabendo cada pedaço também das “dores e delícias” de estar nesse corpo par).

No fim de setembro, ouvimos que a impressão passada pela nossa pequena era de que sua chegada não tardaria. Olhamos as luas, dia 5 virava a cheia e 19 a nova. Comecei a sentir pródromos desde o  final de setembro, durante a madrugada uma contração ou outra vinha preparando o corpo. Tive diarreia dia ou outro, vomitei revivendo a sensação dos enjoos no começo da gravidez. O corpo começava uma limpeza para o dia que mais esperamos neste ano.  A cada dia que passava eu ia jogando as expectativas mais pra longe, ouvindo os conselhos das parteiras e doulas, deixando as águas e as luas rolarem.

A lua cheia chegou e nosso bebê continuou em silêncio esperando sua hora. Algumas contrações aleatórias e eu controlando a ansiedade e a vontade de comer doces – para tentar ajudar os estímulos hormonais do meu corpo. Comecei a perceber que, quanto mais o tempo passava, mais as pessoas também iam ficando ansiosas, me perguntando pra quando, reparando o tamanho da barriga (tem certeza que não são 2? – você ainda consegue se movimentar assim? Quando você vai parar de trabalhar? Como vc fez o enxoval sem saber o sexo? ) E muitas outras coisas que ora me faziam rir ou me deixavam mais sensível e apreensiva.  Decidi passar o contato do Veni para as amigas próximas e que a partir do começo de outubro me desligaria mais das redes sociais e eu precisava disso pra lidar comigo e com a chegada do nosso bebê.

Senti sobre os trabalhos que iria até onde me sentisse bem e respeitada, e estava tudo tranquilo nesse começo de mês. No fim de semana anterior ao parto ajudei na organização de um evento, apresentamos uma peça de teatro e os dias foram seguindo. O começo da semana trouxe de novo a rotina e na segunda-feira fui trabalhar normalmente.

O parto

Terça de manhã (dia 10 de outubro) eu e Ana Bia apresentamos o Abayomi Encantado numa escola no Taquaral (contação de histórias). Voltei pra casa e cochilei profundamente por quase duas horas. Segui para o trabalho da terça, no projeto Namaskar. Saí de lá, fui pagar o aluguel no banco, passei comprar sabonetes para o bebê e fui até o Gaiato buscar o Veni. Voltamos pra casa juntos falando sobre as eliminatórias da Copa do Mundo e com vontade de ver o que ia acontecer.  Tomamos banho e ficamos junto. Tivemos um momento de amor e de casal (nos despedindo sem saber também) E em seguida fomos  ouvir o jogo do Brasil.

Vesti o pijama como alguém que mais uma noite se prepara para dormir. Resolvi comer uma salada de rúcula com queijo branco, pasta de amendoim e de girassol. Talvez meu corpo já estivesse pedindo alguma energia pra noite sem saber que noite seria aquela. Fui até o quarto e o Veni empolgado que o Peru iria pra repescagem, falou com o bebê, lembrando que ele tinha sido concebido no Peru e que por isso estávamos nessa torcida.

Eu estava deitada na cama, levantei para ir ao banheiro e ao levantar senti um liquido jorrando pelas pernas. Na hora pensei, foi a bolsa. Falei com Veni e ele mandou mensagem no nosso grupo de plantão com as parteiras e doula. O líquido jorrou mais umas duas vezes, olhei, era transparente e não era xixi. A bolsa havia estourado. Isso era perto das 22h30. Mas, até então, assim como aprendemos, depois de estourar a bolsa  o trabalho de parto pode demorar pra chegar e ficamos “aparentemente calmos”.  Não passou cinco minutos e veio a primeira contração. Já tínhamos baixado no celular do futuro pai, um aplicativo de contar contrações justamente pra esse momento. Ele começou a computar. E eu comecei a varrer a casa, a arrumar coisas, anotar o que eu queria para o parto, acendi velas, rezei. Andamos os dois pela casa, cada um na sua função. Outra, mais uma, várias, mas de intensidade média. Veni foi marcando. Pela frequência pensamos que estávamos talvez no período latente. Mas já? Tudo assim seguido? Assim sem avisar elas foram chegando, uma a uma, as contrações.

Moramos com mais um casal de amigos e nesse dia a casa estava sozinha. Acredito que a bebê queria que fosse assim, só nós dois, vivendo essa história muito singular na vida de ambos. Tínhamos pedido e já planejado que Ana Bia e Júlia estivessem no dia do parto. Ana Bia tinha ido pra SP na mesma tarde numa missão família muito importante. Veni mandou mensagem pra Julia e ela estava em Paraty. Na hora rimos da nossa própria sorte pensando que nossa equipe estava toda deslocada, rs. Ninguém estava contando que Yuna nasceria nesse dia. Mas Julia chegou em casa a tempo, perto de meia noite, trazida pelo anjo Gabriel em sua moto. Sentimos que foi fundamental mais alguém na casa que pudesse ajudar nas logísticas da água e tudo mais. isso fez com que o foco do Veni estivesse somente no meu parto.

Num dos áudios com a doula eu pedi pra que trouxesse comida, afinal a gente não sabia  quantas horas ficaríamos em trabalho de parto.  23h30 pedimos para ela vir. 23h50 Veni mandou a primeira contagem das contrações no grupo do plantão do nosso parto – a recomendação da Endi foi fazer a contagem durante o período de uma hora. Ela viu a contagem e nos avisou que já estava a caminho. 00h50 Endi chegou.

Peguei a bola de pilates e fui pro chuveiro. Ainda conseguia cantar as músicas que tocavam no computador. Rodolfo Minari, Serena Assumpção, Juçara Marçal.  Todas as deusas em nossa companhia. A bola foi fundamental, ia me mexendo em cima dela, rebolando, virando, deitava e ia sentindo cada uma das contrações que chegavam. Anna chegou junto na respiração. Silencio, escuta. Veni ficava o tempo todo ali, segurava minhas mãos, fazia alguma massagem. Endi chegou e me abraçou e disse “Chegou o dia que você tanto esperou”. Frase que ecoou na minha cabeça durante todo o parto. Era o dia que eu mais esperei durante o ano todo de 2017. Desde que decidimos (lá no Peru ) que era o momento de tentar ter um bebê, todos os dias depois disso vieram junto com o pensamento do dia do parto. Fiquei pensando nisso por um tempo e me deu muita força pra aguentar aquela abertura. Eu quis, desejei, esperei e chegou. Aquele dia especial, dia de conhecer nosso bebê de uma outra forma. Acho que ela não imagina, mas essa frase foi um presente em meio às contrações que abriam meus ossos pra passagem da nossa pequena.  Julia também chegou e como um anjo sereno e ficou ali, sempre presente. É bom sentir a força das mulheres em volta da gente nessa hora. Sentia que todas pulsavam (em silêncio) junto comigo.

Sentia que ficavam mais fortes e frequentes. Respirar era fundamental, descansar no intervalo entre uma e outra. Às vezes eu olhava pra todos ali em volta sem entender muito – devia ser a partolândia que tanto falavam -. Acho que ainda no começo eu e Veni  cantamos a música “O Ovo” do Rodolfo Minari, – “ o ovo dentro ovo, tem um barulho querendo nascer, dele só vai sair passarinho, só vai sair vivo passarinho, se o ovo quebrar, se ele o ovo quebrar”.

 

Fiquei debruçada em cima da bola, gritava, vocalizando a abertura do meu corpo durante a contração. Sentia necessidade de soltar pela voz o que acontecia. Não tinha dimensão do tempo que passou nem nada assim. Não quis comer. lembro de chamar o bebê, “vem bebê, vem bebê”, na hora que elas chegavam e tentava pensar que a cada uma, o bebê estava mais perto. “vem bebê” era só o que eu pensava. Olhava pro Veni, pedi alguma vez pra mudar ou mexer na música de fundo. Não lembro o que falei. Vomitei algumas vezes, trouxeram um balde. Faz bem vomitar, é o corpo limpando. Anna lembrava da respiração. Respirar é tudo, eu pensava. E eu não largava da bola, ela e o chuveiro quente. Ora ou outra levantava, mexia as pernas na hora da contração.

O tempo foi passando até que eu  quis ir pra cama, senti cansaço, sono, sei la o que e pedi pra deitar. Essa mudança de lugar e de posição foi fundamental pro nosso nascimento. Algumas contrações na cama, tentando ficar de lado, e me veio uma vontade insuportável de fazer cocô (acho que fiz um pouco, mas não era isso). Mas era o momento dos puxos, como são chamados, o impulso que o nosso corpo faz para que o bebê nasça. Endi me recomendou ir para o chuveiro mesmo. Ela estava de luvas e eu não entendia nada. Mas já vai nascer?  Perguntou se eu queria a banqueta. A banqueta é pra hora do expulsivo eu pensei. Não sabia há quantas horas estávamos ali. Pode ser a banqueta podia ser uma boa. Sem saber que já estávamos quase. Olhei mais uma vez pro Veni, e ele com os olhos cheios de lagrima. Nessa hora a certeza que eu tinha era de que o bebê estava chegando. Agora era a hora de respirar, mas ainda doía, sentia o corpo todo se abrindo. Veio mais uma, de repente, um alívio, uma paz, bebê ainda não tinha saído, mas com certeza havia passado pela parte dos ossos e chegado bem embaixo, antes de coroar. Senti meu bebê ali dentro de mim, antes de vir e foi lindo. Eu acho que sorri, mas não lembro. Rs. Lembrava que não poderia fazer força, e o puxo vinha com tudo, querendo que eu fizesse. Só respira agora, disse a Endi. Mais uma. Já dava pra ver o cabelinho. Tentei colocar a mão, senti tudo aberto e um pouquinho da cabeça. Não sei se mais uma ou duas contrações e a cabeça veio, eu só respirando, Veni ali com as mãos para receber nossa filha. Mais uma e a bebê fez aquele giro maravilhoso com os ombros e veio de uma vez. Pai e filha se seguraram. Eu abri as mãos rindo sem parar e sem conseguir explicar o que estava acontecendo. Segurei a bebê e vi que era menina, enroladinha nas fraldas de pano, soltando gemidinhos.  Yuna chegou ao mundo. 2h50 da manhã no dia 11 de outubro de 2017. Cordão pulsou por vinte minutos, depois foi cortado pelo pai. Mais uns  40 minutos e a placenta nasceu. Fui tomar banho. Olhei no espelho, tudo ainda estranho, euforia, amor, alegria e uma sensação intensa de paz que irradiava. Tudo correu bem. Foi lindo. Ela chegou ao mundo no dia que se sentiu pronta e o parto aconteceu com todo amor que planejamos e pulsamos.  Sexto dia da lua cheia, quase na virada da minguante. O nome da bebê, que já tinha aparecido pra gente algumas vezes, foi dado enquanto brindamos essa chegada com suco de juçara  – preparado pela doula e batido com um pouco da nossa placenta.

4h30 eu mesma liguei pros meus pais para dar a notícia mais feliz da nossa vida (até hoje).

Gratidão imensa pela equipe maravilhosa que nos acompanhou, toda a força que recebemos semanalmente fez com que a chegada da nossa bebê fosse muito especial. Respeito, cuidado, amor, carinho e atenção. Agora consigo ter mais dimensão sobre o que é um parto humanizado em todos os sentidos da palavra.  Demorei pra conseguir escrever sobre, porque logo após o nascimento, há mergulhos profundos pelos quais estamos passando. Toda a transformação do nascimento ainda é algo que ecoa na minha cabeça recém-parida enquanto olho para essa bebê linda que chegou. Das muitas sensações únicas e às vezes não fáceis de ser mulher nesse mundo, com certeza a maternidade é um dos maiores e mais complexos estados que nos invadem.

Obrigada famílias e amigos lindos que pulsaram com a gente por essa chegada.

Cia Fulô de Circo Teatro faz 8 anos de história e integra a programação da Convenção Paulista de Circo e do FePET Ubatuba

Fundada em Ubatuba no ano de 2009, A Cia Fulô Circo Teatro  foi criada com objetivo de aprofundar a pesquisa da palhaçaria clássica aliadas as técnicas circenses e teatro de animação. A companhia festeja esse momento histórico com uma trajetória repleta de intervenções e apresentações artísticas em diversos lugares. Acompanhe abaixo a programação imperdível dessa trupe.

Nesta semana, na quinta-feira, dia 12 de outubro, o espetáculo “Zé Gambiarra Circo Show”,  faz parte da programação do FePET Ubatuba – Festival de Pequenos Espaços Teatrais. A peça é aberta ao público de todas as idades – crianças grandes e pequenas – e acontece no Sobradão do Porto, às 17h

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Atualmente o grupo conta com os atores, palhaços e multiartistas Anderson Guiam (palhaço Zé Gambiarra) e Josylda Monterlim (palhaça Massaroca) e a pequena Jasmim (palhaça Murissoca), que irão levar o espetáculo “Zé Gambiarra Show” até a Convenção Paulista de Circo, que será realizada entre os dias 1 a 5 de novembro na cidade de Piracaia.

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Sobre a Cia Fulô de Cirto Teatro

A companhia busca referências da linguagem circense em eventos como as Convenções de Circo e Malabares no Brasil e por meio de oficinas que já foram realizadas com palhaços Brasileiros, como Ezio Magalhães (palhaço Zabobrim), Luciano Draetta (palhaço Surubim), Val de Caravalho (palhaça Xaveco), Jose de Vasconcelos (palhaço Xuxu), Rodrigo Robleño (palhaço Viralata) e Fernando Cavarozzi (palhaço Chacovachi)

Também já foram feitos intercâmbios com o grupo Los Circo Los de Campinas, Circo Artetude de Brasilia, Circo Navegador de São Sebastião em busca de inspiração para que o projeto nunca pare.

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