Diversidade sim: diga não à intolerância religiosa

Comunidades de terreiro se mobilizam em todo o país em busca de combater o preconceito e a perseguição. Saiba mais sobre a luta pela preservação da cultura afro-brasileira

“A sua riqueza vem lá do passado, de lá do congado, eu tenho certeza”, a música do baiano Edil Pacheco, eternizada na voz de Clara Nunes celebra a riqueza cultura africana que foi construída no Brasil. Os cantos, os toques, a comida, danças e influências da negritude que pairam nessa terra guardam uma riqueza cultural imensurável. Historicamente, a construção da nossa identidade fez com que o Brasil se tornasse um país negro em cor, forma e conteúdo, mesmo que essa negritude tenha sido renegada ao longo dos anos, a resistência fez com que nos tornássemos o maior país negro fora do continente africano.

Roger Cipó/ Olhar de um cipó

Anos de escravidão, lutas por liberdade e ainda hoje a população negra sofre com o preconceito e a falta de respeito por suas tradições. Recentemente, o Terreiro Casa de Oxumarê, um dos mais antigos e tradicionais do Brasil, organizou uma mobilização nacional em busca de defender e clamar por respeito para com os cultos religiosos afro-brasileiros. A destruição de terreiros, ofensas, invasões e manifestação de ódio e intolerância mostram o retrocesso de parte da sociedade brasileira que teima em contestar a diversidade cultura de um país formado da intensa mistura de etnias.

“Começamos com essa mobilização, sobretudo após o surgimento do exército chamado Gladiadores do Altar, explica Akinyàlé Elias Pontes, coordenador da Rede Afro-brasileira Sociocultural do Estado de São Paulo e Gestor do Grupo de Trabalho de intolerância religiosa no Ministério da Justiça do DF. Segundo ele, adeptos da igreja Universal vêm atacando os centros de matrizes africanas com a justificativa de que são lugares onde se encontra o “demônio”. Casas de culto tanto de candomblé quanto da umbanda em todo o Brasil assinaram um manifesto que será encaminhado para a ONU como forma de campanha por mais respeito e igualdade.

A luta dos povos de terreiro é a mesma em todos os estados do Brasil. Em São Paulo foi criada a inciativa “As Águas de São Paulo”, com a finalidade de expandir a importância de denunciar atos de preconceito com os povos de matriz africana e promover a liberdade religiosa e preservação dessas tradições.  “Precisamos quebrar esses tabus colocados por outras religiões que, ao invés de somar desagrega e gera uma competição que não acrescenta em nada”, diz o Babalorisá Ofanire, Presidente de “As Águas de São Paulo”, um dos maiores movimentos brasileiros contra discriminação e intolerância religiosa.

A beleza negra escondida pela mídia

“Toda riqueza cultural das tradições afro-brasileiras não é mostrada porque não temos espaço na mídia para exibir o que os povos de terreiro têm de melhor”, pontua Pontes. O militante e iniciado no candomblé ressalta também o infeliz hábito dos meios de comunicação brasileiros de reproduzir imagens ruins que não condizem com o que de fato acontece dentro dos terreiros. Mais do que isso, nas poucas vezes em que o debate relacionado ao universo cultural afro-brasileiro chega à grande mídia, o que se vê são produções carregadas de estereótipos e o povo negro sendo alvo de piadas e desrespeito.

Roger Cipó/ Olhar de um Cipó
Roger Cipó/ Olhar de um Cipó

Por esse motivo, a luta das comunidades tradicionais e como de fato acontecem os rituais, a representação do sagrado e toda riqueza cultural fica escondida por uma sociedade ocidental de predominância cristã. “Somos uma cultura milenar viva e que resiste até os dias de hoje, oprimida e se escondendo daqueles que querem acabar com tudo isso”, lamenta Pontes.  

Conhecer para respeitar e vice-versa

O antropólogo Darcy Ribeiro afirma em sua obra O Povo Brasileiro que a população negra foi a força substancial da construção do Brasil. Segundo ele, a presença dos povos africanos fez quase tudo que aqui se fez e construiu o que hoje conhecemos como nosso país. Atitudes noticiadas recentemente mostram a falta de conhecimento da população sobre sua própria origem e, mais do que isso, o desrespeito por culturas diferentes. “Eu acredito que para a sociedade respeitar as diferenças é preciso dar a oportunidade de conhecer julgamentos. Ignorante é aquele que não se permite conhecer”, destaca Cerqueira.

“O que aconteceu essa semana foi um movimento histórico digno de ser noticiado pelos mais importantes canais de comunicação do Brasil. Pela primeira vez as comunidades de terreiros de todos os estados do país, se mobilizaram e denunciaram os ataques e abusos motivados pela intolerância religiosa, no Ministério Público. A falta de atenção da grande mídia para nossa causa demonstra o quão fundamentalista e preconceituosa é a nossa comunicação que enxerga os terreiros somente como exoterismo para previsões e matérias tendenciosas, mas nunca noticiam as importantes lutas que protagonizamos pela tão sonhada liberdade de culto e expressão da fé”, diz Roger Cipó, fotógrafo e candomblecista.

Roger Cipó -/Olhar de um Cipó

“Para mudar essa realidade, temos que combater a raiz da intolerância, que pra mim é o racismo. Historicamente a sociedade negou a cultura, religião e identidade do negro para negar a sua humanidade e justificar até mesmo a escravidão”, alerta Marina Duarte de Souza, jornalista e produtora cultural. Segundo ela, as religiões de matriz africana foram demonizadas pela sociedade cristã branca e patriarcal e até hoje as pessoas reproduzem esse discurso de macumba, feitiçaria, magia negra o que explicita ainda mais o racismo.

A jornalista se iniciou recentemente no candomblé e sente na pele as manifestações de preconceito quando as pessoas se deparam com seus trajes brancos. “Sinto que as vezes chega a ser uma fobia. Há pessoas que chegam com papos como “Jesus te ama menina” e respondo: “não foi ele que pregou o respeito ao próximo?”, completa. “Em longo prazo isso se combate com educação e informação, daí a importância de leis como a 10.639, do Estatuto da Igualdade Racial e do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana”, ressalta Souza.

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São Paulo pra todo mundo

No finalzinho do semestre, o projeto Brasil de Todo Mundo fez sua primeira viagem! Sim, conseguimos reunir o pessoal para fazer um breve (mas muito proveitoso) roteiro cultural pela maior cidade da América do Sul, São Paulo.

A capital do nosso estado é também um centro multicultural e cheio de diversidade. Alguns dos alunos, passaram pela primeira vez pelas grandes avenidas, edifícios e por tudo mais que há de grandioso na metrópole. O passeio despertou a curiosidade de muitos que sentiram que apesar de não haver praia, ou pontos turísticos do tipo, sim, valia muito a pena colocar a cidade entre o roteiro turístico do Brasil.

Visitamos primeiro o Memorial da América Latina, uma ode à cultura latino americana em forma de centro cultural projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. As diversas instalações do local representam a integração  entre as culturas existentes no continente, pensadas a princípio pelo sociólogo Darcy Ribeiro.

Depois, passamos pelo incrível Museu do Futebol. Localizado no estádio do Pacaembu, o projeto interativo de mesclar conhecimento com recursos lúdicos atraiu até aqueles que não ligavam muito para o futebol em si. Durante muito tempo todos ficaram vidrados nas atrações do museu, e tivemos que correr para poder conhecer o próximo ponto.

A última e breve parada foi no Museu da Língua Portuguesa. O idioma, representado nesse caso pela nossa herança lusa, é para todos que vêm de fora a primeira forma de começar a criar certa percepção sobre o universo cultural brasileiro. Através das palavras que estão nas músicas, poemas, livros, lugares, rodas de conversa e tudo mais que nos cerca é que conhecemos uma nova cultura. No caso do Brasil, o Museu é capaz de transmitir muito bem as peculiaridades da nossa língua. A mescla com outros povos, os sotaques regionalizados,  as gírias e a forma de falar muito diferente à Portugal. E essa diversidade linguística que muitas vezes encanta e diverte os estudantes quando descobrem novas palavras a cada instante.

O dia passou rápido demais para tudo que tínhamos que conhecer, quando vimos, já era hora de voltar. Ainda que curto, o tempo com certeza foi de aprendizado, descontração e principalmente de conhecer um universo diferente, representado nos museus da capital do nosso estado.

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Mama África

Uma aula para nossa mãe África

Uma das bases da formação do povo, identidade e cultura brasileira é a matriz afriacana. E, é claro que em uma das aulas da oficina a gente trabalhou esse tema, junto a algo que deve ser uma das maiores heranças trazidas pelos navios negreiros que habita e transcende o espírito e a alma do brasileiro: a música.

A verdade é que muito além da música, assim como diz Darcy Ribeiro, a miscigenação com a cultura africana trouxe ao povo brasileiro um colorido diferente. E esse colorido está nas roupas, nos acessórios, na comida e principalmente na alegria da nossa gente.

 

Passamos pela comida com o leite-de-côco, o óleo de dendê, vatapá, acarajé, cocada, e muitas outras coisas, até o feijão de todo dia também são considerados influência africana presentes na culinária diária do brasileiro.

A história de como foi a escravidão, o tráfico de escravos, o número de negros trazidos de lá, e a triste condição em que eles viviam também foi abordado. A resistência manifestada através dos quilombos e da sobrevivência da cultura e dos costumes.Uma falsa abolição e a degradação social que os ex-escravos foram submetidos quando “libertos”.

O conhecimento e a sabedoria da cultura afriacana, que na impossibilidade de ser menifestada de forma explícita, tomou forma da crença cristã para sobreviver. E quando se tratou de treinar para saber se defender, a capoeira nasceu como uma “dança” aos olhos dos senhores de engenho e até os dias de hoje é praticada por brasileiros em todo o país e em muitos outras partes do mundo há brasileiros espalhados plantando essa cultura em outras terras.

Na aula, a participação do Du, um amigo baterista e percussionista deixou a aula mais dinâmica e animada. Ele nos trouxe instrumentos de percussão como o “shekere”, o chocalho, o agogô e até um pandeiro com o qual ele fez um samba pra gente no final.

Todo mundo pode tentar tocar os instrumentos, e conforme ele ia explicando, aprender um pouco dos ritmos brasileiros.

Terminamos a aula ouvindo algumas músicas que eu tinha escolhido pra mostrar pra eles: Cartola, Paulinho da Viola, Adoniran e Noel. E, a partir da ideia dos próprios alunos, todos tiveram que sambar (ou pelo menos tentar) ao som desses mestres da música brasileira.

Cartola

Talismã – Paulinho da Viola

Por falar em Brasil, a primeira aula.

Bom, na nossa primeira aula – que infelizmente não temos o registro fotográfico ou a foto-chamada completa (faltou né Gerry?) – a gente começou conversando sobre como seria a oficina. A verdade é que eu tentei falar da ideia e de como me faz bem pensar que estou podendo colocar em prática esse sonho que nasceu em terras argentinas e idealizado por um amigo mexicano.

Fotos: Garoto Gerry

Como eu disse, a ideia veio da argentina, e junto com os hermanos do grupo, sempre tem um mate, instensificando a mescla de culturas que acontece.

O que eu quis deixar claro é que a missão de passar um pouco mais da cultura brasileira para vocês que estão vindo de outros países é um tanto desafiadora. Eu chamaria até de diretamente proporcional aos mais de 8 milhões de quilômetros que se estendem pelo território do Brasil.

Mas, vale a pena enfrentar esse desafio, e tentar pouco a pouco aclarar os aspectos que compõem a nossa cultura e identidade.

Por isso, resolvi começar pelo descobrimento. Pelo momento em que teoricamente nosso país começava a existir, e o quanto ele se tornou diferente dos demais países latinos americanos a começar por um idioma distinto e posteriormente por outros motivos que também vamos tratar nas aulas.

O que valeu contar é que antes mesmo dos portugueses chegarem, os índios que aqui viviam já tinham escolhido um nome para esta terra que a eles pertenciam. Da palavra indígena Pindorama – que significa “terra de papagaios” no idioma tupi-guarani-

Em uma expedição comandada por Pedro Álvares Cabral, foi no dia 22 de abril de 1500 que as caravelas portuguesas desembarcaram em Porto Seguro na Bahia. O que hoje é o Brasil passou a ser chamado de Ilha de Vera Cruz e depois que constaram que não se tratava apenas de uma ilha, passou a ser Terra de Santa Cruz.

E é aí que esse vídeo (apesar de feito para crianças) pode ajudar a entender esses muitos nomes e a chegada dos portugueses.

A influência indígena na formação do povo brasileiro é segundo define o antropólogo Darcy Ribeiro o ponto inicial da mistura que aqui se iniciou. Além dos hábitos que aprendemos com os índios como o amor a musica e a dança, dormir em redes, as milhares de palavras do vocabulário tupi que são usadas diariamente em nosso vocabulário, as índias foram de acordo com Darcy as mães dos primeiros filhos dessa terra.

                 “O fenótipo predominante do brasileiro é o de um moreno cobreado, porque foram raríssimas as   mulheres vindas da Europa e também em número relativamente pequeno as vindas da África. A população brasileira na sua maioria é geneticamente indígena. Também no plano cultural o brasileiro é meio índio. Nossa característica distintiva, aquela que nos diferencia dos europeus e dos africanos, reside essencialmente na herança indígena, que nos deu desde os nomes que usamos para designar a natureza brasileira ate as formas de atuar e sobreviver dentro dela.”
Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro

Algumas palavras do dia-a-dia brasileiro, de origem tupi-guarani

Ficar com nhenhenhém – que quer dizer falando sem parar, pois nhe’eng é falar em tupi.

Chorar as pitangas – pitanga é vermelho em tupi; então, a expressão significa chorar lágrimas de sangue.

Cair um toró – tororó é jorro d’água em tupi, daí a música popular “Eu fui no Tororó, beber água e não achei”.

Ir para a cucuia – significa entrar em decadência, pois cucuia é decadência em tupi.

Velha coroca é velha resmungona – kuruk é resmungar em tupi.

Socar – soc é bater com mão fechada.
Peteca – vem de petec que é bater com a mão aberta.

Cutucar – espetar é cutuc.

Sapecar – é chamuscar é sapec, daí sapecar e sapeca.

Catapora – marca de fogo, tatá em tupi é fogo.