A cultura viva da Tietê que você ainda não conhece

Tietê é uma cidade pequena mas menos pacata do que parece. Nós estamos bem perto da capital e o suficiente para que ali alguns costumes e ideologias são mantidos de maneira conservadora pela sociedade tieteense. Nessa terra muitas vezes somos protegidos pelo sobrenome que ganhamos ao nascer, e ao respondedor “de que gente é”, muita coisa se consegue e algumas portas se abrem. Cercada pelo rio que a nomeia, esse pedaço de terra foi abençoado pelas tradições culturais ali nascidas.

São_benedito

Nossa festa do Divino Espírito Santo tem quase 200 anos e em todo mês de dezembro a toda a vida em todo o mundo para celebrar um fé de uma promessa que foi concretizada e curou muitos da febre amarela. A viola caipira que se consagrou na poesia e na força de Cornélio Pires ainda ecoa em muitas casas em alguns eventos culturais da cidade. De lá também saiu Itamar Assumpção e toda uma preciosidade de seu ritmo e música. O doce de goiaba e os apelidos são outras peculiaridades que formam pouco a pouco uma identidade única que se mantém em meio ao avanço cosmopolita das influências das “cidades grandes”. Apesar de que eu acredite que não existe tamanho e sim nossa forma de enxergar e habitar o lugar em que vivemos fazendo dele ínfimo ou imenso, tudo isso é uma questão de perspectiva.

Para despedirmos do mês de setembro, há uma celebração que completou 147 anos, também típica dessa pequena cidade que eu chamo com carinho de minha, que posso ser de quem quiser amá-la. A festa em louvor à São Benedito, o santo negro e milagroso atraiu em mais uma edição do evento milhares de pessoas por uma cidade. Ainda há uma parte do publico não venha pela religiosidade, há na festa um rito tradicional fundamental para a nossa identidade cultural paulista: o batuque de umbigada. Mesmo tendo passado uma maior parte da vida (até hoje) em Tietê, apenas quando é uma coisa que você conhece, mais conheça uma especial da tradição até hoje guardada pela família do mestre Herculano.

batuque_robinho

Mestre_herculano

José Saramago em seu livro “O Conto da Ilha Desconhecida diz: ” Quero encontrar uma ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela é, não sabes, não é um sais de ti, não chegas a saber quem és “. Muitas vezes precisa Em todos os lugares para saber o que quer que seja para o nosso mercado e para o qual é o quê? preservar essa manifestação afro-brasileira e muito rara.

No caminho da reinvenção e da recriação das culturas chamadas de populares, semper é importante ver os jovens aprendendo, crianças se interessando e gente vinda de longe para ver o que é nosso. Ainda não há comentários sobre este produto. Mais informaçóes e comentários.

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O batuque de umbigada como vemos hoje nesse trio de cidades interioranas e carregadas pela cultura caipira tem origem na cultura bantu e o encontro de umbigos está relacionado à fertilidade que representa essa parte do corpo. Com modas originais que cantam e contam o cotidiano do povo negro que habitou a terra mandada pelos brancos, o batuque é dançado até as seis da manhã e a animação é garantida. Os tambores, a fogueira, a canja de galinha, o café e toda da atmosfera do lugar são elementos que mitificam os momentos de cada noite do sábado de São Benedito.

Todo ano a alegria se repete e sensação que me invade é de querer compartilhar com cada vez mais gente essa história que é de todos nós. Se pudesse colocaria todas as pessoas queridas naquele barracão para ver e viver comigo o batuque e energia transmitida por ele. Enquanto isso não é possível, deixo essas palavras de agradecimento por mais um ano de celebração da fé, da cultura e da tradição de Tietê. Agradeço também a Aniete Abreu, pessoa querida que fortalece o grupo com as crianças de alguns bairros da cidade, remando contra todas as marés do conservadorismo e colocando a cultura no lugar que deveria sempre ter estado: junto com a educação. Agradecimento especial aos companheiros das cidades de Capivari, Piracicaba e tantas outras que estiveram presente nessa e em outras noites de batuque. Queridos João Victor e Capela, vocês foram os primeiros nativos que dividiram comigo a sensação de indignação (por não ter vindo antes) e encantamento (já que nunca é tarde para aprender) ao ver e viver o quanto é importante fazer com que mais pessoas da nossa e de todas as gerações conhecer sobre nossa história e cultura. Muitos batuques virão e com a benção de São Benedito, iremos juntos levar essa mensagem para que mais pessoas saiam da escuridão e compartilhem da luz que é a nossa cultura popular brasileira.

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Viva São Benedito e viva o batuque de umbigada que perpetua até os dias de hoje na nossa querida cidade!

Fotos:

Flickr Prefeitura de Tietê / S P

Projeto No Terreiro do Tambú – Rio Claro / SP

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Pedalar quer dizer viver

bicicleta          Há uns dias atrás, na mesma semana, um acontecimento importante marcou a vida de duas pessoas que possuem suas vidas entrelaçadas a minha. E, mais ainda, esses fatos se coincidem apesar da diferença do momento em que cada uma delas se encontra em sua forma de existir no mundo. Minha amiga e companheira de casa, faculdade e de muitas histórias compartilhadas, deu suas primeiras pedaladas esses dias. Isso mesmo, para aqueles que já perderam o espirito da continuidade e persistência, sim, é possível, depois de “grande” aprendermos a pedalar. Quando ela chegou em casa contando como tinha sido, a sensação que eu tive instantaneamente foi a memória do dia em que meu pai me havia levado para pedalar sem rodinhas pela primeira vez. Mas, mais do que isso, eu senti um orgulho e uma felicidade que não cabiam em mim, vendo sua vontade e força em aprender aos vinte e poucos anos algo que a maioria diz ser de regra “para a infância”. Mesmo que jovem, a sensação de pertencer ao mundo adulto muitas vezes nos priva de muitas coisas que evitamos fazer por estar “crescidos”. Quando se é criança, não há medo de cair e levantar, não temos em nosso vocabulário nem no imaginário infantil aquela coisa de “será que eu posso?”. Simplesmente nos lançamos às brincadeiras, a terra, a chuva e tudo mais que parecer divertido. Isso faz da infância uma fase repleta de descobertas inusitadas e de boas histórias para contar. Tudo isso me veio à mente quando a vi chegar da sua primeira aula oficial de bicicleta, após muito tempo esperando por dar aquela pedalada sem rodinhas que tanto esperamos. Sentir que a mão do pai, mãe, irmão, quem quer que seja, se soltou de trás do banco e que agora só depende das nossas pernas, braços, cabeça e tudo mais é uma sensação incrível. E era nisso que eu pensava, transbordando de felicidade por ela, vendo que o sonho pode ser maior do que qualquer obstáculo muitas vezes imposto apenas por pensamentos pessimistas e até por pessoas que infelizmente já perderam quase tudo da criança que vive dentro de cada um. E, por falar em criança, um dia após toda essa emoção, recebo uma ligação do meu priminho de cinco anos me contando eufórico que tinha andando sem rodinhas e falando que agora não precisava mais treinar (ou seja, de alguém que o segurasse). Eu me emocionei ao telefone, num misto de saudade, alegria e de vontade de ter estado junto para compartilhar o momento de pertinho, mas só a ligação, dele que sabe da minha paixão por bicicletas já fez com que a noite de ontem ficasse mais feliz. Pode parecer uma metáfora louca, devaneio de ciclista, ou qualquer coisa do tipo, mas senti uma necessidade enorme de escrever sobre a bicicleta e sobre o fato dela nos proporcionar sentimentos únicos e históricos. Tanto para minha amiga, e sua força e determinação de começar a pedalar mais tarde que a maioria das pessoas quanto para meu pequeno primo, com seus poucos anos de existência, a bicicleta representava um grande desafio a ser superado. E, no caso dele talvez o primeiro de todos os outros que ainda enfrentará na vida. Acho até que nos dá forças, para enfrentar o que mais possa parecer difícil e complicado, mas que com o tempo, com jeito a gente vai se acostumando, e o pedal se adapta aos pés, fazendo com que os desafios diários agora estejam apenas nas distâncias maiores, nos pneus furados e até no momento em que precisamos parar e pensar se aquela ainda é a bicicleta certa, já que as pernas ficaram maiores que o próprio quadro, mais uma vez pode ser hora de enfrentar um desafio novo, com a consciência de que ele virá cheio de emoção e aprendizado. Os dois deram suas primeiras pedaladas por caminhos diferentes mesmo que eu acredite, com a mesma intensidade e sensação de ter enfrentado um grande e importante obstáculo.