Troca de saberes e histórias da juventude negra

Segundo os mestres da cultura iorubá, a chuva anuncia bons presságios e fortalece os acontecimentos simultâneos à precipitação. Na noite de 4 de fevereiro de 2015, sob a garoa repentina em uma São Paulo no auge da crise hídrica, a consulesa francesa Alexandra Loras recebeu em sua casa um grupo de jovens negros formadores de opinião. A residência de arquitetura modernista acolheu o grupo de 18 pessoas. Articulados por Priscila Fonseca, relações públicas da Associação Palas Athena e ativista social, jovens de diversas profissões e talentos, mas com propósitos de vida e de luta em comum, se encontraram para partilhar experiências, trocar conhecimentos e fortalecer a luta coletiva e cotidiana.

“Fazer algo para que a cultura negra seja reconhecida, falar sobre as grandes personalidades negras que demorei tanto a conhecer e mostrar o que não há nos livros é algo que me nutre a alma”, disse Loras. Entre os vários temas da conversa, os convidados ouviram Loras se surpreender com a realidade atual que vive o Brasil, principalmente em relação ao genocídio dos jovens negros que ocorre nas periferias das grandes cidades do país. Um problema grave, mas pouco discutido pela maioria da sociedade.

Semayat Oliveira

A dimensão do encontro talvez só seja medida em longo prazo, quando o tempo passar e notarmos que a caminhada de luta e resistência da população negra seja de fato legitimada por uma sociedade que viva de maneira mais igualitária e justa. Juventude, negritude, planos e sonhos. Tudo isso foi colocado à mesa por pessoas de personalidades singulares, mas com ideais comuns. Jovens que lutam diariamente e estiveram reunidos, nesse espaço dessa grande e agressiva cidade, muitas vezes desigual e racista. A evidência é uma só: todos os relatos e perfis comprovam o que a mídia e muitos livros escolares insistem em esconder: existe um racismo velado que pulsa em nosso país, que precisa ser combatido de maneira urgente.

Moises Patrício

Histórias correlatas

Dos vinte jovens presentes, metade foram considerados como “sortudos” pela roda. Não que tenha sido fácil nascer negro em uma sociedade pensada por brancos e para brancos, mas quase dez dos integrantes do grupo possuem nomes africanos, temáticos ou referências históricas de personalidades importantes e negras. Dessa forma, fica evidente que o berço facilitaria a vida de luta, como disse a comunicadora Semayat Oliveira, “meus pais me preparavam para ir à guerra, desde pequena”. Com a militância estampada nos nomes e nos seus perfis inquietos com a realidade brasileira, a apresentação dessas pessoas coincidiu no histórico da militância familiar e talvez hereditária. Não menos sofrida, a vida de cada um deles caminhou para que fizessem dos seus sonhos uma causa maior.

A outra metade, não menos negra, viveu o momento que pode ser chamado de descoberta. Saber-se negro e orgulhar-se da pele, dos cabelos, dos olhos, do sorriso e da própria cultura. Famílias que queriam “embranquecer”, fazer chapinha nos cabelos e negar a cor e a origem vez ou outra foram citados. Porém, na vida de todos eles ocorreu uma epifania similar. Um momento em que cada um soube fazer ascender o negro que existia dentro de si e transbordar sua negritude mundo à fora. Resistir dentro de casa, mostrar aos amigos e ensinar que ser negro não acaba na cor da pele foi aos poucos se transofmando em um objetivo de vida. Depois de tal descoberta, o ativismo é praticamente inevitável, pois não há mais como voltar atrás.

Priscila Fonseca

“A equidade é o norte para o desenvolvimento da cidadania”, diz Priscila Fonseca, organizadora do encontro

Juventude negra

Em todas as partes do Brasil iniciativas populares de combate ao racismo e ao preconceito com a população negra surgem como forma de transformar a realidade atual. Os anos passaram, a escravidão terminou na teoria, ainda que na prática, a população descendente de africanos siga marginalizada em todas as esferas da sociedade. É isso que combatem movimentos como Encrespa Geral, A Presença Negra, a Marcha das Mulheres Negras.

Combater o racismo é urgente

Empreendedores, doutores, artistas, comunicadores e outras tantas profissões. Nos currículos profissionais, as pessoas presentes na sala ainda enfrentaram a sociedade racista para provar suas competências e ocupar o espaços físicos e imaginários, colocando mais história e a cultura negra no dia a dia do país.

Roger Cipó

Formada em jornalismo na França, a consulesa cursou o mestrado sobre a invisibilidade do negro na televisão de sua terra natal. No encontro, ela apontou a necessidade de transmitir às crianças brasileiras esse lado da história que passa despercebido pelo ensino tradicional “Quando eu descobri que a geladeira foi inventada por um negro, comecei a me perguntar por que isso não estava no livro da escola”, disse Loras.

Flávio Ribeiro e Juliana Santos, educadores que trabalham com a temática afro-brasileira, também fortaleceram a necessidade latente de tirar da invisibilidade as referências que podem inspirar jovens negros ainda desacreditados de seu potencial por falta de representatividade.

Juliana dos Santos

Samoury Mugabe, ativista do Conselho Nacional de Juventude também alertou para a realidade que surpreende a consulesa no Brasil: o genocídio do povo negro. “Como falar de cotas ou do Prouni, sendo que o genocídio com os jovens negros chega a 50 mil por ano?”, pontuou o ativista. Segundo ele, os números reais são ainda mais assustadores e por isso são mascarados pelo governo. Segundo a Anistia Internacional, no ano de 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios foram praticados com armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.

“Não existe uma elite negra brasileira, o que existe são pessoas chegando a espaços de formação e temos de ser conscientes do largo caminho que temos para trilhar até a população negra alcançar o poder politico, econômico e intelectual no Brasil”, destacou Viviane Ferreira, advogada e cineasta. Ela alertou para a relevância que há em termos consciência do nosso caminho e da nossa responsabilidade coletiva. Para Ferreira, ainda estarmos longe de um processo de igualdade para acesso aos lugares de poder.

Juntos vamos mais longe

“Eu admiro o trabalho da consulesa e sua trajetória de militância desde a França, é uma mulher forte e esclarecida. A presença dela junto aos jovens negros é importante, pois se dá de um jeito onde cada um oferece o que tem de melhor para o coletivo”, diz Priscila Fonseca, responsável por nos reunir e fazer com que o encontro acontecesse. A consulesa demonstrou vontade e interesse para fazer parte dos diversos movimentos que estavam ali representados.

Juventude negra e consulesa

“A equidade é o norte para o desenvolvimento da cidadania. A diversidade é criativa, justa e poderosa”, destaca Fonseca. A cumplicidade do trabalho feito por todos os presentes podia ser sentida de longe. A consciência de saber que estamos ocupando espaços antes não permitidos nem alcançados por negros fez desse momento uma grande partilha de ideais concretizados, sem perder a vontade de seguir o caminho dessa longa jornada. Para a organizadora, o encontro foi muito importante. A conversa ultrapassou o compartilhar de histórias para tornar-se um reconhecimento do grupo. “Eu acredito muito no provérbio africano que nos diz que: sozinhos vamos mais rápido; juntos vamos mais longe”, completa.

Fotos: Cláudia Souza

Vanessa Cancian no Portal NAMU

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Mulheres combatem padrões de beleza

Encontro em aldeia guarani, em SP, compartilha costumes ancestrais e luta contra estereótipos da indústria da moda

No extremo sul da cidade de São Paulo, na aldeia Tenondé Porã, onde vive parte da comunidade guarani, o coletivo Manifesto Crespo, formado por mulheres negras, promoveu o evento “Tecendo e trançando arte”. O projeto, criado com a finalidade de discutir a beleza verdadeira da mulher brasileira através da quebra dosestereótipos que predominam na moda e na mídia, levou até a comunidade indígena oficinas e atividades de troca de saberes entre as mulheres presentes.

Dentro de uma área de Mata Atlântica ainda preservada, as mulheres se uniram para compartilhar costumes ancestrais e colocar em contato essas etnias diferentes, mas com históricos comuns de luta, sofrimento e resistência. Em um ambiente marcado pela diversidade, anfitriãs e visitantes fortaleceram os laços que historicamente unem as duas culturas.

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“O encontro nesse ambiente, junto aos povos originários foi escolhido porque a aldeia conta com a Jerá Guarani, uma liderança feminina que nos dá orgulho e que sabe que no passado existia muita união entre as comunidades negra e indígena”, afirma Lúcia Udemezue, membra do Manifesto Crespo. Segundo ela, o ativismo de Jerá Guarani em diversos movimentos políticos fortalece a participação feminina na aldeia. “Nós acreditamos que as pautas das nossas lutas se encontram de alguma maneira e estamos juntos defendendo uma bandeira maior, em busca igualdade pra que seja feita a justiça que não foi feita há séculos em nosso país”, completa Udemezue.

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“Ao aprender as amarrações para carregar os filhos percebi que nós fazemos da mesma forma que os negros. Dá pra ver a semelhança entre a sabedoria milenar presente nas duas partes”, diz Poty Porã, mulher guarani e professora da escola da aldeia. Segundo ela, foi gratificante participar das atividades e aprender a fazer turbantes e outras amarrações que foram ensinadas pelas integrantes do grupo.

Bonito é ser diferente

“As histórias das mulheres negras brasileiras possuem relatos semelhantes: quando crianças tinham o cabelo trançado pelos familiares, na juventude alisava e na idade adulta, há a busca por assumir os crespos”, conta Denise Souza, educadora e integrante do Manifesto Crespo. Para ela, as vivências organizadas encontram pontos em comum, independente do lugar onde seja aplicada.

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“A mídia, atualmente, mostra sua agressividade porque estamos reagindo. Quanto mais a gente combater, mais virá essa força contrária”, conta Lúcia Udemezue. O projeto se propõe a mostrar a beleza da diversidade e da mulher negra, na luta contra a mídia e a publicidade monocromática que insiste em explicitar em propagandas, filmes e novelas um único tipo de mulher, de pele branca e cabelos lisos.

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“Quando fazemos esse tipo de atividade dá pra ver que o olhar das pessoas muda e elas começam aenxergar a cultura negra de outra forma”, pontua Thays Quadros, produtora do projeto. Ela conta que o intuito do coletivo é passar as técnicas de tranças e turbantes de geração em geração, incentivando as crianças a aprenderem essas tradições. “Quando uma criança conhece a outra cultura, sabendo sobre as diferenças vai olhar com outros olhos e apreciar a beleza da diversidade. Para combater o racismo é preciso ensinar as pessoas a respeitar as diferenças”, completa.

Trançando e tecendo arte

Em 2014, o Manifesto Crespo, em parceria com a União Popular de Mulheres do Campo Limpo, foi contemplado com o “Prêmio Lélia Gonzalez – protagonismo de organizações de mulheres negras”. A iniciativa propõe a realização do resgate da cultura artística das tranças e turbantes afro em 5 cidades do estado, que contam lideranças femininas representativas e tradições ligadas a cultura africana no Brasil.

“Nosso projeto começou com um grupo de mulheres jovens e negras que se reuniram para discutir a questão de identidade através do cabelo”, conta Lucia Udemezue. O impulso inicial para o nascimento do coletivo veio, segundo ela, das dificuldades de aceitação do cabelo crespo. “Começamos a juntar várias experiências para montar um projeto de cunho artístico, pedagógico e também político. Para assim, criar um ambiente em que a gente pudesse compartilhar as experiências e ouvir das mulheres como elas não aceitas em sociedade por conta de um padrão de beleza imposto”, completa.

Fotos 1 e 5: Nathália Kamura

Fotos 2 e 3: Felipe Scapino

Foto 4: Semayat Oliveira

Vanessa Cancian no Portal NAMU