Saiba como ajudar a ocupação da Aurelina

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Pessoal, como muitos já sabem, a escola Aurelina Ferreira no bairro da Estufa II em Ubatuba está ocupada pelos alunos. A organização dos jovens está muito legal e todos os dias eles promovem assembleias para definir as tarefas e ações.

No momento, algumas necessidades básicas para que a ocupação seja mantida são:

  • Alimentos (pães e frutas podem ser bem vindos para que eles não comam somente industrializados – tudo isso já é bem melhor que a merenda que era servida)
  • material de papelaria (cartolina, guache, papeis e tudo mais que possa virar instrumento de comunicação dentro e fora da escola)
  • material de limpeza: produtos, panos e coisas do tipo.
  • tempo – ir até lá, conversar, fortalecer as ideias e conhecer o espaço é algo fundamental e os jovens estão abertos a conhecer as pessoas que queriam ajudar da maneira que puderem
  • livros “didáticos” ou não – revistas e materiais que possam ser utilizados pela galera que está ocupando (a biblioteca, assim como demais espaços da escola foram trancados)
  • aulas abertas – todas as pessoas interessadas em propor aulas podem conversar isso com os estudantes – assim que eles levam a proposta pra assembleia, isso ajudará para que a agenda ganhe mais corpo.

Endereço: a escola fica localizada na Estufa II, ao lado da escola municipal Maria Josefina. R. América, 200 – Estufa II, Ubatuba – SP, 11680-000

Quem quiser me ligar (Vanessa Cancian), eu passo o contato direto de alguns estudantes que estão lá: 12-99675-6861

 

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Comece o dia bem: visite uma escola ocupada

 

Ubatuba, 02 de dezembro de 2015. A escola estadual Aurelina, localizada no bairro da Estufa II em Ubatuba foi ocupada pelos alunos que se mobilizaram para fortalecer a luta dos estudantes em todo o estado de São Paulo. Como sabemos (não porque a grande mídia avisou, mas porque o movimento consistente é capaz de gritar mais alto que ela), no último mês os estudantes passaram a lutar para conter o fechamento de quase cem escolas estaduais. A ação que foi chamada pelo governador Geraldo Alckmin de “reorganização” vai superlotar salas de aulas já superlotadas e fazer com que o ensino torne-se ainda mais precário. Na contramão desse retrocesso, a força popular dos estudantes tem falado mais alto.

Hoje eu saí de casa e antes de qualquer coisa, passei por essa ocupação. Fui recebida aos sorrisos pelos alunos (afinal cheguei de bicicleta e não de camburão), pedi para entrar e eles chamaram a menina que está coordenando toda a ação. Fiz algumas perguntas porque faço parte de um grupo que quer ajudar na mobilização. Eles mostraram as salas que viraram quartos, uma que virou refeitório e o pátio com cartazes dividindo as equipes por setores com as atividades necessárias para manter o ambiente organizado.

A mesma coordenadora me contou que na noite anterior foi realizada uma assembleia, alguns pais participaram e poucos professores. Ganharam uma geladeira, micro-ondas e o apoio desses pais que entenderam que a causa é válida e só assim podemos pensar em transformar a realidade da educação sucateada do estado de São Paulo.

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Os meninos e meninas me disseram que precisam de aulas abertas e atividades que sejam propostas, estão abertos ao que vier e felizes com toda contribuição que possa fortalecer o movimento. Eu acredito que agora seja o momento de doação, de parar nosso tempo para fazer algo maior a esses jovens. Eles estão sedentos de saberes que não necessariamente estão nos livros e dentro desse exercício de democracia que estão promovendo, todos os esforços são bem-vindos.

Eu precisava compartilhar que saí da escola transbordando alegria, renovação e com vontade de levar todas as pessoas possíveis para esse lugar que, diferente do habitual, transformou-se em um espaço de debate, troca de conhecimento de maneira horizontal e carregados de jovens com capacidade de autonomia e mobilização.

Nenhum passo atrás, nenhum direito a menos! Quem tiver interesse em participar das ações da ocupação nos procure para fazer parte da programação. Todos os esforços somados serão bem acolhidos.

A cultura viva da Tietê que você ainda não conhece

Tietê é uma cidade pequena mas menos pacata do que parece. Nós estamos bem perto da capital e o suficiente para que ali alguns costumes e ideologias são mantidos de maneira conservadora pela sociedade tieteense. Nessa terra muitas vezes somos protegidos pelo sobrenome que ganhamos ao nascer, e ao respondedor “de que gente é”, muita coisa se consegue e algumas portas se abrem. Cercada pelo rio que a nomeia, esse pedaço de terra foi abençoado pelas tradições culturais ali nascidas.

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Nossa festa do Divino Espírito Santo tem quase 200 anos e em todo mês de dezembro a toda a vida em todo o mundo para celebrar um fé de uma promessa que foi concretizada e curou muitos da febre amarela. A viola caipira que se consagrou na poesia e na força de Cornélio Pires ainda ecoa em muitas casas em alguns eventos culturais da cidade. De lá também saiu Itamar Assumpção e toda uma preciosidade de seu ritmo e música. O doce de goiaba e os apelidos são outras peculiaridades que formam pouco a pouco uma identidade única que se mantém em meio ao avanço cosmopolita das influências das “cidades grandes”. Apesar de que eu acredite que não existe tamanho e sim nossa forma de enxergar e habitar o lugar em que vivemos fazendo dele ínfimo ou imenso, tudo isso é uma questão de perspectiva.

Para despedirmos do mês de setembro, há uma celebração que completou 147 anos, também típica dessa pequena cidade que eu chamo com carinho de minha, que posso ser de quem quiser amá-la. A festa em louvor à São Benedito, o santo negro e milagroso atraiu em mais uma edição do evento milhares de pessoas por uma cidade. Ainda há uma parte do publico não venha pela religiosidade, há na festa um rito tradicional fundamental para a nossa identidade cultural paulista: o batuque de umbigada. Mesmo tendo passado uma maior parte da vida (até hoje) em Tietê, apenas quando é uma coisa que você conhece, mais conheça uma especial da tradição até hoje guardada pela família do mestre Herculano.

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José Saramago em seu livro “O Conto da Ilha Desconhecida diz: ” Quero encontrar uma ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela é, não sabes, não é um sais de ti, não chegas a saber quem és “. Muitas vezes precisa Em todos os lugares para saber o que quer que seja para o nosso mercado e para o qual é o quê? preservar essa manifestação afro-brasileira e muito rara.

No caminho da reinvenção e da recriação das culturas chamadas de populares, semper é importante ver os jovens aprendendo, crianças se interessando e gente vinda de longe para ver o que é nosso. Ainda não há comentários sobre este produto. Mais informaçóes e comentários.

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O batuque de umbigada como vemos hoje nesse trio de cidades interioranas e carregadas pela cultura caipira tem origem na cultura bantu e o encontro de umbigos está relacionado à fertilidade que representa essa parte do corpo. Com modas originais que cantam e contam o cotidiano do povo negro que habitou a terra mandada pelos brancos, o batuque é dançado até as seis da manhã e a animação é garantida. Os tambores, a fogueira, a canja de galinha, o café e toda da atmosfera do lugar são elementos que mitificam os momentos de cada noite do sábado de São Benedito.

Todo ano a alegria se repete e sensação que me invade é de querer compartilhar com cada vez mais gente essa história que é de todos nós. Se pudesse colocaria todas as pessoas queridas naquele barracão para ver e viver comigo o batuque e energia transmitida por ele. Enquanto isso não é possível, deixo essas palavras de agradecimento por mais um ano de celebração da fé, da cultura e da tradição de Tietê. Agradeço também a Aniete Abreu, pessoa querida que fortalece o grupo com as crianças de alguns bairros da cidade, remando contra todas as marés do conservadorismo e colocando a cultura no lugar que deveria sempre ter estado: junto com a educação. Agradecimento especial aos companheiros das cidades de Capivari, Piracicaba e tantas outras que estiveram presente nessa e em outras noites de batuque. Queridos João Victor e Capela, vocês foram os primeiros nativos que dividiram comigo a sensação de indignação (por não ter vindo antes) e encantamento (já que nunca é tarde para aprender) ao ver e viver o quanto é importante fazer com que mais pessoas da nossa e de todas as gerações conhecer sobre nossa história e cultura. Muitos batuques virão e com a benção de São Benedito, iremos juntos levar essa mensagem para que mais pessoas saiam da escuridão e compartilhem da luz que é a nossa cultura popular brasileira.

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Viva São Benedito e viva o batuque de umbigada que perpetua até os dias de hoje na nossa querida cidade!

Fotos:

Flickr Prefeitura de Tietê / S P

Projeto No Terreiro do Tambú – Rio Claro / SP

Pra ter jongo é preciso ter terra

O quilombo da fazenda é coordenado pelo senhor Zé Pedro. Ele guarda quase 80 anos de luta, resistências e sorrisos pairam nessa pessoa e contagia todos àqueles que chegam à comunidade quilombola do norte de Ubatuba. Uma casa de farinha com uma antiga roda d’água ainda em funcionamento para a fabricação da farinha de mandioca, uma linda construção de pau à pique para a venda do artesanato e muitas belezas naturais fazem parte dessa paisagem viva. A Fazenda é mais um reduto de cultura tradicional caiçara para conhecer e desbravar o lado pouco conhecido da cidade.

Zé Pedro é contador de histórias e não precisa muito para que ele com sua simpatia que transborda comece a falar sobre as coisas daquele lugar. E para quem quiser levar um pouco dessa rica história para casa, um livro feito com contos e relatos do quilombola pode ser adquirido no local.

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No último sábado e domingo, os primeiros dias do mês de agosto, ele tomou a iniciativa de organizar o Primeiro Festejo de Folclore da Fazenda. Com o intuito de celebrar o mês em que no Brasil comemoramos as tradições folclóricas, que diferente do que a escola ensina, vão muito além do saci-pererê e da mula sem cabeça. Alguns grupos de outros bairros de Ubatuba se apresentaram, teve comidas típicas e dança.

Nós fomos até lá exibir o documentário “Cambury, histórias e memórias”, feita na jornada do Projeto Garoupa em Ubatuba. Depois de assistir ao filme, ele veio me dizer que sua alegria era grande demais, por poder ver as pessoas da comunidade vizinha que não vê há tempos. Se emocionou e transpareceu ter gostado de verdade e aquele sorriso farto preencheu a alegria de estar lá naquele momento proporcionando essas sensações.

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Arte é resistência

Depois do filme crianças e jovens do grupo “Ô de casa” montaram os equipamentos e tocaram fandangos, cirandas e jongos. Levei minha saia na mala porque sabia que isso poderia acontecer e brinquei essas danças com eles, aprendendo e compartilhando. Um pequenino de 4 anos me segurou para seu par e a cada nova dança ele pegava minha mão para me mostrar como se fazia. A ciranda caiçara é diferente daquela pernambucana, mas o princípio da roda e a diversão são igualmente garantidas.

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Depois terminamos jongando com os pequenos que tocam, cantam e guardam consigo a força da nossa cultura. Me senti agraciada de dividir com eles a roda e viver um pouco do que eles têm feito na comunidade. Através da arte a resistência se manifesta e faz com que o povo quilombola lute por dignidade e pelo respeito das suas tradições que dependem diretamente do território, das águas e das matas.

O querido Delcio Bernanrdo da Cultuar, de Angra dos Reis me contou uma vez sobre o quanto o jongo é fundamental para garantir a dignidade das comunidades remanescentes de quilombo, deixo aqui seu relato cheio de sabedoria:

“Pra ter jongo precisa ter terra. Como se protege a terra? Ela não é mais tratada hoje em dia como era antigamente. A tomada de consciência do papel da terra para as comunidades tradicionais se dá através do processo da cultura e eu acredito que a terra seja o instrumento mais interessante para a prática cultural e a cultura o instrumento mais interessante para a garantia da terra. Uma coisa não vive sem a outra.”

Para o educador português José Pacheco “aula não ensina, prova não avalia”

José Pacheco, o educador, escritor e ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal), faz duras criticas ao atual sistema educacional brasileiro. Para ele, só há dois motivos para a situação permanecer como está: ou os responsáveis por essa área no Brasil são incompetentes ou são corruptos. O responsável por uma das melhores escolas da Europa e que agora está com projetos educacionais no Brasil, enumera os diversos e profundos problemas que afetam a educação das crianças e jovens do país.

Uma das entrevistas mais incríveis que pude acompanhar junto com o pessoal do NAMU. O mestre Pacheco dando a deixa sobre o sistema educacional e trazendo novos olhares para nossas escolas, crianças, pais e professores.

Portal NAMU

Força e resistência: grafite valoriza a mulher brasileira

Artista Criola enche as ruas de Belo Horizonte com paisagens que expressam a luta contra os padrões de beleza

“Meu objetivo é contrapor a publicidade que explora um padrão que não é o da mulher brasileira”, diz Criola

As obras de Tainá Lima, conhecida como Criola, colorem as ruas de Belo Horizonte e fortalecem o movimento negro na principal cidade do Estado. A jovem mineira começou a grafitar em junho de 2012. Sua arte expressa a história e os gritos de resistência contra o preconceito e a ancestralidade afro-brasileira.

“Meu objetivo enquanto mulher negra e grafiteira é contrapor a publicidade que explora um padrão de beleza europeu e não retrata a realidade da miscigenação do nosso povo brasileiro. Desejo honrar através dessa arte aqueles que um dia tiveram sua liberdade cerceada em razão da cor e acredito que é graças a eles que estou aqui hoje”, afirma a artista.

“Eu enxergo o grafite como um grito da cidade. Em meio ao caos urbano ele vem para contrapor a cor cinza, transmutando a rotina intensa dos transeuntes em cores”, relata. Ela destaca que nesse sentido, o grafite é uma arma poderosa na contraposição dos padrões estéticos que não condizem com a beleza real das mulheres brasileiras.

“Na medida em que a representatividade dos negros aumenta em todas as áreas e segmentos, os estereótipos se enfraquecem”, completa a artista.

ORÍ: a raiz negra

“O grafite que eu faço apresenta formas e cores que apesar de serem inofensivas à primeira vista, carregam consigo gritos de resistência que ecoam desde à época da escravidão”, diz Criola sobre os elementos que compõem seu traço artístico. O principal projeto da jovem grafiteita é denominado ORÍ, a raiz negra que sustenta é a mesma que floresce.

A artista salienta a relevância de fazer uma arte que explore esses símbolos e mensagens. Segundo ela, a manifestação construída pelos negros na cidade legitima a busca pela quebra de estereótipos e preconceitos.

“Ori significa cabeça em iorubá. Para mim essa é a parte do corpo que melhor representa a ancestralidade africana” conta Criola. Segundo Patrícia Alves Matos, ialorixá do Ilê Asè Iya Mi Agba e educadora, diz que ori representa também a essência daquilo que a pessoa é. “Falamos nessa tradição que se trata do primeiro orixá, aquele que não abandona o indivíduo onde quer que ele esteja. Eu costumo dizer que a palavra “orientar” vem do ori, pois é partir dele que temos consciência de quais caminhos seguir, para estar sempre firme nos seus princípios”, esclarece a sacerdotisa.

Cabelo e cabeças livres

O projeto de Criola coloca em evidência o irun (cabelo), uma parte muito importante no universo da beleza femina. “O cabelo crespo sempre foi alvo de preconceitos e agressões e o uso da chapinha é uma tentativa de ocultar a origem, a raiz e a história”, pontua a artista. De acordo com ela, por meio do cabelo se constrói uma metáfora com a raiz das plantas no sentido de crescer livre para ganhar força e florescer.

“O cabelo é uma das questões que mais mexem com as mulheres quando se trata da valorização da identidade” aponta Alves Matos. “Nós sofremos muito com essa questão e acho legítimo o movimento do grafite chamar a atenção das pessoas para essa causa”, pontua. Ela diz que se trata de desfazer as amarras que nos prendem aos padrões. “Sempre ouvimos que é preciso alisar o cabelo para uma entrevista de emprego, ou então quando a mulher quer se arrumar mais, a atitude é a mesma e isso precisa mudar” completa a ialorixá.

“O nosso problema está relacionado não apenas com a identidade africana, mas com a brasilidade”, diz Alves Matos. Segundo ela, toda identidade brasileira se monta pelos padrões europeus e ela enxerga que tanto na educação quanto na vida cotidiana a população precisa construir com mais força essa personalidade. “Ainda estamos nesse processo que independe da cor da pele dos diferentes tipos de cabelo e olhos”, diz.

Quando se fala em educação, a Lei nº 10.639 de 2003 estabeleceu como obrigatório o ensino de história e cultura africana e indígena nas escolas. Ainda assim, o sistema educacional está se adaptando para trabalhar a temática que durante séculos ficou esquecida. “Hoje como educadores temos esse lugar privilegiado para tratar da diversidade, nessa formação de identidade”, pontua Matos. É preciso que as pessoas estejam dispostas ao diálogo e esse é um trabalho de formação permanente”, completa a ialorixá.

Mais liberdade para o grafite mineiro

Com o tempo, diversas capitais brasileiras encaram a realidade e a transformação que o grafite traz para o ambiente urbano. As cores e as mensagens passadas pelas imagens nos mais diferentes locais colocam o Brasil na cena internacional dessa manifestação artística. Criola conta que na capital mineira ainda não há muita liberdade para os grafiteiros: “Belo Horizonte é uma cidade conservadora e tradicionalista em várias áreas e nas artes não seria diferente”, relata a artista. Segundo ela, BH está atrasada nesse assunto quando comparada com São Paulo e Rio de Janeiro.

“Recentemente fiz um projeto de mural na área central da cidade e como a pintura demandaria alguns dias eu não poderia fazer sem autorização, que é o que normalmente faço. Além da autorização do proprietário do muro eu ainda tive que pedir autorização à prefeitura e só consegui de fato a licença depois de vários meses de tentativa”, relata Criola sobre a burocracia relacionada ao grafite na cidade. Segundo ela, ainda falta investimento e posicionamento do governo local, além de mais abertura de diálogo sobre as questões relacionadas a essa forma de expressão.

Criola também vê a educação como instrumento para quebrar preconceitos e fortalecer a identidade brasileira. “Se ensinarmos as crianças o valor e a riqueza das nossas raízes culturais brasileiras, acredito que essa conexão com a identidade vai ocorrer de maneira mais intuitiva”, destaca a artista.

Para a ialorixá, “temos de aprender que a beleza está nas diferenças”. Ela indica que abrir espaço para trabalhos que valorizem o patrimônio cultural pode ajudar para uma melhor compreensão desse tipo de arte, a qual, para ela, é uma importante forma de resistência.

Fotos: Athos Souza

Foto 5: Gabriella Soares

Vanessa Cancian no Portal NAMU

Troca de saberes e histórias da juventude negra

Segundo os mestres da cultura iorubá, a chuva anuncia bons presságios e fortalece os acontecimentos simultâneos à precipitação. Na noite de 4 de fevereiro de 2015, sob a garoa repentina em uma São Paulo no auge da crise hídrica, a consulesa francesa Alexandra Loras recebeu em sua casa um grupo de jovens negros formadores de opinião. A residência de arquitetura modernista acolheu o grupo de 18 pessoas. Articulados por Priscila Fonseca, relações públicas da Associação Palas Athena e ativista social, jovens de diversas profissões e talentos, mas com propósitos de vida e de luta em comum, se encontraram para partilhar experiências, trocar conhecimentos e fortalecer a luta coletiva e cotidiana.

“Fazer algo para que a cultura negra seja reconhecida, falar sobre as grandes personalidades negras que demorei tanto a conhecer e mostrar o que não há nos livros é algo que me nutre a alma”, disse Loras. Entre os vários temas da conversa, os convidados ouviram Loras se surpreender com a realidade atual que vive o Brasil, principalmente em relação ao genocídio dos jovens negros que ocorre nas periferias das grandes cidades do país. Um problema grave, mas pouco discutido pela maioria da sociedade.

Semayat Oliveira

A dimensão do encontro talvez só seja medida em longo prazo, quando o tempo passar e notarmos que a caminhada de luta e resistência da população negra seja de fato legitimada por uma sociedade que viva de maneira mais igualitária e justa. Juventude, negritude, planos e sonhos. Tudo isso foi colocado à mesa por pessoas de personalidades singulares, mas com ideais comuns. Jovens que lutam diariamente e estiveram reunidos, nesse espaço dessa grande e agressiva cidade, muitas vezes desigual e racista. A evidência é uma só: todos os relatos e perfis comprovam o que a mídia e muitos livros escolares insistem em esconder: existe um racismo velado que pulsa em nosso país, que precisa ser combatido de maneira urgente.

Moises Patrício

Histórias correlatas

Dos vinte jovens presentes, metade foram considerados como “sortudos” pela roda. Não que tenha sido fácil nascer negro em uma sociedade pensada por brancos e para brancos, mas quase dez dos integrantes do grupo possuem nomes africanos, temáticos ou referências históricas de personalidades importantes e negras. Dessa forma, fica evidente que o berço facilitaria a vida de luta, como disse a comunicadora Semayat Oliveira, “meus pais me preparavam para ir à guerra, desde pequena”. Com a militância estampada nos nomes e nos seus perfis inquietos com a realidade brasileira, a apresentação dessas pessoas coincidiu no histórico da militância familiar e talvez hereditária. Não menos sofrida, a vida de cada um deles caminhou para que fizessem dos seus sonhos uma causa maior.

A outra metade, não menos negra, viveu o momento que pode ser chamado de descoberta. Saber-se negro e orgulhar-se da pele, dos cabelos, dos olhos, do sorriso e da própria cultura. Famílias que queriam “embranquecer”, fazer chapinha nos cabelos e negar a cor e a origem vez ou outra foram citados. Porém, na vida de todos eles ocorreu uma epifania similar. Um momento em que cada um soube fazer ascender o negro que existia dentro de si e transbordar sua negritude mundo à fora. Resistir dentro de casa, mostrar aos amigos e ensinar que ser negro não acaba na cor da pele foi aos poucos se transofmando em um objetivo de vida. Depois de tal descoberta, o ativismo é praticamente inevitável, pois não há mais como voltar atrás.

Priscila Fonseca

“A equidade é o norte para o desenvolvimento da cidadania”, diz Priscila Fonseca, organizadora do encontro

Juventude negra

Em todas as partes do Brasil iniciativas populares de combate ao racismo e ao preconceito com a população negra surgem como forma de transformar a realidade atual. Os anos passaram, a escravidão terminou na teoria, ainda que na prática, a população descendente de africanos siga marginalizada em todas as esferas da sociedade. É isso que combatem movimentos como Encrespa Geral, A Presença Negra, a Marcha das Mulheres Negras.

Combater o racismo é urgente

Empreendedores, doutores, artistas, comunicadores e outras tantas profissões. Nos currículos profissionais, as pessoas presentes na sala ainda enfrentaram a sociedade racista para provar suas competências e ocupar o espaços físicos e imaginários, colocando mais história e a cultura negra no dia a dia do país.

Roger Cipó

Formada em jornalismo na França, a consulesa cursou o mestrado sobre a invisibilidade do negro na televisão de sua terra natal. No encontro, ela apontou a necessidade de transmitir às crianças brasileiras esse lado da história que passa despercebido pelo ensino tradicional “Quando eu descobri que a geladeira foi inventada por um negro, comecei a me perguntar por que isso não estava no livro da escola”, disse Loras.

Flávio Ribeiro e Juliana Santos, educadores que trabalham com a temática afro-brasileira, também fortaleceram a necessidade latente de tirar da invisibilidade as referências que podem inspirar jovens negros ainda desacreditados de seu potencial por falta de representatividade.

Juliana dos Santos

Samoury Mugabe, ativista do Conselho Nacional de Juventude também alertou para a realidade que surpreende a consulesa no Brasil: o genocídio do povo negro. “Como falar de cotas ou do Prouni, sendo que o genocídio com os jovens negros chega a 50 mil por ano?”, pontuou o ativista. Segundo ele, os números reais são ainda mais assustadores e por isso são mascarados pelo governo. Segundo a Anistia Internacional, no ano de 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios foram praticados com armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.

“Não existe uma elite negra brasileira, o que existe são pessoas chegando a espaços de formação e temos de ser conscientes do largo caminho que temos para trilhar até a população negra alcançar o poder politico, econômico e intelectual no Brasil”, destacou Viviane Ferreira, advogada e cineasta. Ela alertou para a relevância que há em termos consciência do nosso caminho e da nossa responsabilidade coletiva. Para Ferreira, ainda estarmos longe de um processo de igualdade para acesso aos lugares de poder.

Juntos vamos mais longe

“Eu admiro o trabalho da consulesa e sua trajetória de militância desde a França, é uma mulher forte e esclarecida. A presença dela junto aos jovens negros é importante, pois se dá de um jeito onde cada um oferece o que tem de melhor para o coletivo”, diz Priscila Fonseca, responsável por nos reunir e fazer com que o encontro acontecesse. A consulesa demonstrou vontade e interesse para fazer parte dos diversos movimentos que estavam ali representados.

Juventude negra e consulesa

“A equidade é o norte para o desenvolvimento da cidadania. A diversidade é criativa, justa e poderosa”, destaca Fonseca. A cumplicidade do trabalho feito por todos os presentes podia ser sentida de longe. A consciência de saber que estamos ocupando espaços antes não permitidos nem alcançados por negros fez desse momento uma grande partilha de ideais concretizados, sem perder a vontade de seguir o caminho dessa longa jornada. Para a organizadora, o encontro foi muito importante. A conversa ultrapassou o compartilhar de histórias para tornar-se um reconhecimento do grupo. “Eu acredito muito no provérbio africano que nos diz que: sozinhos vamos mais rápido; juntos vamos mais longe”, completa.

Fotos: Cláudia Souza

Vanessa Cancian no Portal NAMU