Saiba como foi o Encontro de Teatro do Oprimido em Ubatuba!

Ouvir as comunidades tradicionais que são invisíveis perante o turismo de massa que se aproxima com a chegada da temporada, construir novas forma de pensar a arte junto ao território tradicional, conhecer a Ubatuba que poucos veem. Tudo isso permeou a produção e a realização do II Encontro Sem Fronteiras de Teatro do Oprimido (TO), que aconteceu de 12 a 15 de novembro.

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O evento foi organizado de maneira independente por parceiros da Rede Sem Fronteiras de TO e pela produtora Canoyá. Além disso, contou com o apoio institucional da Prefeitura Municipal institucional por meio da FundArt, da Secretaria de Educação e da Secretaria de Obras.  Ainda que, para concretizar o que parecia uma utopia por conta da ausência de aportes financeiros, diversos parceiros locais fortaleceram o movimento do encontro com doações que foram fundamentais para que tudo se tornasse realidade.

E como manda a tradição em Ubatuba, a chuva (que no fundo anuncia bons presságios), chegou e ficou do começo ao fim do encontro. Em media 80 pessoas de grupos de teatro ou interessados no encontro chegaram até a terra das canoas. Vindas de outros países, estados e de muitas cidades de São Paulo, cada um pode contribuir um pouco para que o evento se tornasse algo inesquecível para quem é de dentro e de fora da rede.

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“A abertura, que foi realizada no dia 12 de novembro, nos fundos do Sobradão do Porto da FundArt, contou com a presença da incrível Bárbara Santos, que lançou seu livro “Raízes e Asas”.  A obra apresenta um conteúdo completo sobre a estética do oprimido e muito da trajetória da mulher que acompanhou o trabalho de Augusto Boal por mais de 20 anos”, conta Rodrigo Caldeira, integrante do Coletivo Garoa e um dos produtores do encontro. Após o lançamento do livro, Bárbara mediou uma roda de conversa com a participação de Vanda Mota, Sá Ollebar e Daniela Garcia.

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Atividades fora do centro e perto da gente

Organizado em 4 dias, grande parte das atividades do evento aconteceram espalhadas pelo município. As parcerias com projetos como o Gaiato, Instituto da Árvore, Projeto Bacuri (sertão do Ubatumirim), aldeia Boa Vista, Espasol entre outros, fizeram com que oficinas e apresentações artísticas acontecessem em locais fora do centro. “O que marcou pra mim do encontro foi a abrangência e diversidade de localidades que de alguma forma tiveram contato com algum grupo ou pessoa da Rede Sem Fronteiras de TO”, destacou Caldeira.

Segundo ele, ao descentralizar as atividades e levar as oficinas e peças de Teatro do Oprimido para comunidades mais afastadas do centro, os integrantes dos grupos de teatro também abriram seus horizontes para diferentes realidades e opressões que estão ocorrendo neste território e que ficam invisíveis. “Ao levar uma oficina, ganhávamos muito mais em troca e nos solidarizávamos com a opressão dos outros ao mesmo tempo em que ampliávamos os pontos de contato com comunidades que não costumam ter acesso a teatro”, completa.

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Vamos fazer TO em Ubatuba?

“Eu vi no TO uma ferramenta incrível de transformação da realidade da qual não conhecia. Fiquei muito interessada em saber mais, fazer algum curso para poder trabalhar com isso depois”, disse Tami Albuquerque, moradora de Ubatuba que acompanhou todos os dias de programação do encontro. A oceanógrafa que atua em conselhos como o de Meio Ambiente em grupos de apoio as mulheres considerou a relevância do formato que levou oficinas para lugares diversos.

Assim como ela, demais pessoas de Ubatuba que participaram das oficinas, das apresentações e das rodas de conversa, viram no teatro do oprimido uma nova forma de construir e pensar a arte, sempre com olhar crítico e como agente transformador da realidade. “Eu acredito que precisamos criar um grupo, trabalhar esse tema nas escolas, nas comunidades tradicionais. Temos aqui, assim como em tantos outros lugares no Brasil, diversos grupos oprimidos como quilombolas, caiçaras, indígenas, as mulheres e vejo em Ubatuba tem potencial para desenvolver essas ferramentas”, finaliza.

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“Depois de quatro dias de evento, o assunto reverberou bastante na cidade e vejo que nossa missão agora é não deixar esse morrer. Nossa ideia é continuar fazendo atividades e fazer com que as lutas se somem e formem ondas maiores ainda de reverberação”, conta Rodrigo Caldeira.  “Não havia em Ubatuba a prática do Teatro do Oprimido e é fundamental desenvolver um grupo aqui na cidade, pois a demanda por um teatro crítico que pense a arte como ferramenta de transformação, é muito grande”, completa.

A arte como ferramenta de luta dos povos e comunidades tradicionais

Mesmo com a chuva que não parou um só instante, os grupos de participantes se deslocaram para o quilombo de Camburi, a aldeia Boa Vista e o sertão do Ubatumirim. Na proposta da troca de saberes, todo mundo aprendeu e ensinou com mestres, griôs e pajés que vivem nesse território cheio de diversidade cultural.

Toda essa luta e resistência também estiveram presentes na segunda-feira, dia 14, na mesa de encerramento do evento, que discutiu a arte como ferramenta de luta dos povos e comunidades tradicionais de Ubatuba e da região como um todo. Carolina Barbosa, representante do Fórum de Comunidades Tradicionais (Angra, Paraty e Ubatuba) apresentou o trabalho desenvolvido pelas frentes de luta do FCT. “Nós trabalhamos com turismo de base comunitária, educação diferenciada, agroecologia, saneamento ecológico e com a cultura como forma de defender o território”, disse.

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“Nós mostramos que não é preciso o saber acadêmico para que possamos ensinar. Eu não tenho medo de falar com ninguém, nem de me posicionar contra a retirada dos nossos direitos”, ressaltou Marcos Tupã, liderança guarani da aldeia Boa Vista. Cleo Kerexu, da aldeia Boa vista contextualizaram a educação indígena na comunidade e a importância da língua para que suas tradições sejam diariamente mantidas.

Em uma roda de conversa com mais de cem pessoas atentas ouvindo e perguntando, os indígenas, caiçaras e quilombolas falaram sobre as diversas realidades de Ubatuba que sempre ficam ocultas pelo turismo de massa que invade o município. Mário Ricardo de Oliveira, conhecido como Mário Gato, contextualizou a história dessa terra cheia de entraves políticos, interesses imobiliários e muita resistência por parte das comunidades tradicionais. O público presente participou ativamente da prosa que também contou com a participação de Sr. Alcides, quilombola de Camburi.

“O Teatro do Oprimido é uma ferramenta disponível a qualquer luta contra injustiça. E cabe sempre aos seus praticantes, dentro de uma ética transformadora, se unir a movimentos que já tem suas bandeiras de luta. Em Ubatuba certamente criou-se um vínculo da Rede com o Fórum de Comunidades Tradicionais que luta contra os ataques aos seus territórios e, consequentemente, às suas culturas e tradições”, relata Caldeira. O ator conta também que num âmbito mais macro, percebe-se diversas outras opressões dentro das próprias comunidades, como violência contra a mulher e outras opressões de gênero, a opressão contra a liberdade religiosa ou de livre expressão cultural, entre outras.

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“Mais do que criar um grupo de TO, penso que o processo de transmissão do conhecimento do método para toda comunidade que tiver interesse, para que se passe o conhecimento e os meios de produção da criatividade e da formação de um imaginário de realidades possíveis. Dessa forma, as próprias comunidades podem se apropriar do método e desenvolvam sua própria estética, seja no centro, na periferia, no quilombo, na aldeia ou em comunidade caiçara”, finaliza Caldeira.

Para quem participou, gostou e quer somar ao movimento de construção de um grupo de Teatro do Oprimido em Ubatuba, fique atento que em breve começaremos as primeiras oficinas de formação. Aqueles que perderam o evento mas também se interessam, também poderão saber mais sobre essa forma de fazer arte com conteúdo crítico e que carrega possibilidades de transformar a realidade.

Ao final de quatro dias, muitos laços foram formados. Pessoas se conhecendo e se reconhecendo, povos tradicionais ensinando e compartilhando suas histórias e uma outra forma de pensar o fazer teatral foi inaugurada na cidade. Nós da equipe organizadora agradecemos a cada um dos parceiros que acreditou e que nos ajudou a construir esse projeto! Agradecemos a Rede Sem Fronteiras e reforçamos o convite aos grupos, que voltem sempre pois as portas estão abertas!

Viva a arte sem fronteiras e as culturas tradicionais dessa terra cheia de diversidade!

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