Rota do Cambuci: gastronomia brasileira e turismo sustentável em São Paulo

O cambuci é rico em vitamina C e pode ser utilizado para fazer bebidas e pratos doces ou salgados

Nativo das terras do sudeste brasileiro e pertencente à mesma família da goiaba, da jabuticaba e da pitanga, o cambuci (Campomanesia phaea) é um fruto que, em razão do desmatamento, quase desapareceu da gastronomia brasileira. Ainda hoje, muitos habitantes de São Paulo não sabem que o nome dado ao um dos bairros mais tradicionais da capital paulista é por conta desse fruto, que fez parte da história e da cultura alimentar da região. Não só de história e sabor esse fruto é composto, as propriedades nutricionais do cambuci provam a urgência de trazê-lo de volta à mesa da população brasileira.

“O nome foi dado pelos povos guaranis que viviam na região da Mata Atlântica e tem origem na expressão “kãmu-sy”, que significa ‘pote de água’ ou ‘seio de mãe’”, diz Gabriel Menezes, empreendedor socioambiental do Instituto Auá. Segundo ele, além do consumo in natura, o fruto era mergulhado em bebidas como a aguardente pelos povos indígenas e bandeirantes para dar um “sabor especial”.

Resgatar o consumo do cambuci é também resgatar a história da culinária regional do sudeste do Brasil 

“Esse fruto é muito rico em vitamina C e possui o mesmo nível de acidez que o limão taiti”, afirma , Menezes que é também um dos organizadores do projeto Rota do Cambuci, iniciativa criada com a finalidade de promover o uso e comercialização do cambuci nas regiões onde é cultivado por agricultura familiar e orgânica.

Uma pesquisa divulgada recentemente pela Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp (FEA) constatou que o cambuci ajuda a reduzir o índice de glicose no sangue. Além disso, outros estudos mostram que as taxas de colesterol também são diminuídas por se tratar de um alimento adstringente. A pesquisa identificou também que o cambuci, quando consumido através da geleia processada não perde suas propriedades que o caracterizam como um fruto rico em vitaminas, sobretudo, a C e diversos compostos antioxidantes.

Preservar o que é nosso

O fruto não está na lista brasileira das espécies ameaçadas divulgada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mas faz parte do relatório internacional elaborado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

A falta de reconhecimento do cambuci e sua importância para a biodiversidade e gastronomia brasileira, segundo o especialista, estão diretamente relacionadas com o fato dele não fazer parte da lista brasileira das plantas em extinção. “Por isso, temos um enorme desafio de reconhecer o que é nosso e valorizar a biodiversidade de cada região. O cambuci é da nossa região, além de ser muito aromático, saboroso, e extremamente rico em termos alimentares”, completa.

O que é a Rota do Cambuci?

“A Rota do Cambuci é um festival que funciona como ferramenta de divulgação do produtor para o consumidor. Temos constatado que a participação dos produtores representa um aumento de 25 a 30% em suas rendas. A finalidade do evento é promover a conservação do fruto na parte sudeste do bioma Mata Atlântica e valorizar a cultura e gastronomia local, além de fortalecer a agroecologia, o comércio justo e o turismo sustentável nos municípios onde ocorre”, pontua Menezes.

Municípios como Rio Grande da Serra, Salesópolis, Paraibuna, Natividade e o distrito de Paranapiacaba, em Santo André, são locais onde o fruto ainda é produzido por agricultores familiares. A ideia de criar a Rota do Cambuci surgiu em 2008 durante um workshop realizado no Festival do Cambuci, no município paulista de Paraibuna. A parceria com o Instituto Auá consolidou o projeto como um roteiro gastronômico e aumentou a quantidade de municípios e produtores participantes.

“Em 2010, a prefeitura de São Paulo passou a apoiar o projeto e hoje temos 11 municípios que participam de 13 festivais durante o ano”, diz Menezes. Os produtores de cambuci estão em uma área fundamental para a preservação da biodiversidade e produção de alimentos, o chamado cinturão verde. “No ano passado foram produzidas 10 toneladas de cambuci. Nesse ano, estamos com 20 produtores e a expectativa dessa safra é de 20 toneladas. Além disso, reunimos 30 parceiros consumidores por meio doEmpório Mata Atlântica, iniciativa criada pelo Instituto Auá para distribuir produtos elaborados com frutos nativos da Mata Atlântica, como a uvaia, o cambuci, o araçá e o palmito juçara”, conta Menezes.

A iniciativa é uma aliança entre os produtores e os distribuidores para fortalecer o mercado e controlar as etapas de armazenamento e logística com base no comércio justo. “Nos arranjos produtivos, os agricultores formaram um conselho gestor para fornecer as diretrizes do trabalho. É para eles que prestamos contas sobre o tudo que está acontecendo. Vemos que as pessoas que fazem seu projeto de vida com o cultivo do cambuci e demais frutos nativos, enxergam que essas práticas são também geradoras de água, conservacionistas e valorizadoras da Mata Atlântica”, completa.

Segundo ele, para fortalecer o ciclo de produção, processamento dos produtos e controle das perdas de safras, o Instituto Auá, em parceria com a Rota do Cambuci, criou o arranjo produtivo sustentável. “Dentro do projeto há quatro setores que trabalham ao mesmo tempo: uma área direcionada a estudos sobre as propriedades nutricionais e físico-químicas desse alimento, o arranjo produtivo sustentável, os festivais gastronômicos e o s circuitos turísticos”, completa.

Os povos guarani, tropeiros e bandeirantes já utilizavam o fruto que era abundante na região da Serra do Mar

No segundo semestre de 2015, o grupo pretende implantar a Rota Turística do Cambuci, que irá reunir atrativos no trecho entre as cidades paulistas de Juquitiba até Caraguatatuba. “Já mapeamos cerca de 40 locais entre produtores, restaurantes e hotéis que trabalham com o cambuci na região onde ele é endêmico”. Segundo Menezes, o trabalho da rota é resgatar não somente o cultivo e apreciação do cambuci mas criar um mercado sustentável no turismo e na gastronomia dessas regiões.

Para saber mais sobre o calendário de festivais desse ano, acesse o site do projeto. Lá há informações dos eventos, receitas e demais acontecimentos relacionados ao cambuci e seus derivados.

Cambuci na culinária

Com cambuci apode-se fazer licores, vinho, sucos, vitaminas, geleias, sorvete, molhos, entre outros derivados, e um dos usos mais antigos e tradicionais desse fruto nas regiões de cultivo é através da infusão na cachaça. “No site da Rota do Cambuci há uma parte de receitas e já foram publicados quatro livros de comidas feitas com esse alimento”, conta Menezes.

Fotos 2 e 4: Heloísa Bio

Foto 3: Ana Cecília Bruni

Vanessa Cancian no Portal NAMU

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2 comentários sobre “Rota do Cambuci: gastronomia brasileira e turismo sustentável em São Paulo

  1. Parabéns pela matéria! Morei 28 anos em São Paulo e nunca comi o Cambuci…depois que mudei já vi algumas reportagens sobre ele….Isso é bom, estamos revivendo uma fruta típica de São Paulo, da cultura(antiga) local!

    Aproveito para convidá-los a conhecer o Portal EcoHospedagem (www.ecohospedagem.com) que visa incentivar praticas de sustentabilidade no turismo.

    Um abraço,

    Thiago Cagna

    1. Oi Thiago, tudo bem? Legal seu site! Procure o pessoal da Rota do Cambuci em SP. Eles estão inclusive organizando um circuito turistico e gastronomico relacionado ao fruto e tudo mais, podem pensar em coisas juntos! abraços! Vanessa

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