Entulho e muito carinho.

Os dois

Eu sempre morei ao lado da casa dos meus avós, e isso me deu de presente a presença constante de muita gente em minha vida. A casa da vó Ana sempre viveu cheia de pessoas, visitantes, agregados que ela chamava de filhos e seus filhos, netos e sobrinhos de verdade. Mas não era só isso, lá tinha também uma hora do café que nunca falhava. Tinha bolo, café com leite e o que mais gostávamos: o folhado, ou crostoli. Uma massa frita italiana que ela aprendeu a fazer logo que se casou com meu avô. E pelo que eu sei, ela fazia sempre para minha mãe e meus tios quando pequenos.

Mas, lá também tinha a hora da reza, em que ela sentava todas as crianças, e ai de quem não parasse de brincar pra vir rezar, e rezávamos um dos terços do dia. Toda a criançada obedecia. Sempre teve uma vara de marmelo atrás da porta. Ainda que eu não me lembre dela ter sido usada com os netos, o medo de precisar vê-la em ação falava mais alto. Ainda que a vó Ana fosse uma vó diferente, ela fazia o papel de pai e mãe, colocando ordem quando precisava, sem mimar demais, mas dando o carinho e colo suficiente. Lembro como se fosse ontem de nós, os netos deitados com ela no chão da sala esperando pela história que ela ia contar. Mesmo sabendo que ela seria a primeira a dormir com a própria história, a gente ficava ali e acordava ela a cada cochilada pra saber o que viria depois. “Vó, a senhora tá dormindo”, sempre alguém falava e ela sorria recomeçando de onde parou ou de qualquer outro lugar, mas sem perder o sentido e a gente sem perder a atenção.

A vó Ana sempre foi uma mãe para todos do bairro em que vivemos. Ela ajudou pessoas que vieram da Bahia e do Norte de Minas, e isso fazia com que sua casa fosse um local onde sempre alguém que fazia doações, deixasse as coisas por lá.  Meu avô, que é a pessoa mais serena que já conheci , trabalhou a vida toda dirigindo um caminhão da prefeitura que recolhia entulho da rua. Mais um motivo pra casa viver cheia de coisas que ele achava. Ele trazia as coisas e a vó achava as pessoas certas pra ganhar tudo aquilo. Muitos daqueles objetos iriam ser jogadas fora, mas ele dava um novo uso pra tudo, levava para casa e doava para alguma daquelas famílias retirantes e iam chegando e fazendo com que o bairro crescesse. A vó Ana com seu jeito mãe de ser, mesmo com a idade chegando, saía pelo bairro levando o que faltava para quem não tinha e o vô Armando, trazia móveis, roupas, brinquedos e tudo mais achado literalmente na rua, colocava sua timidez de lado e acompanhava a vó de carro ou a pé, ajudando a achar novos donos para seus achados.

Vô Armando

 No começo era só a nossa rua, com muita gente conhecida, muitos parentes morando um perto do outro. Eu até ouso dizer que meus avós influenciaram para que a migração no bairro acontecesse de forma mais intensa, porque quem chegasse, teria um amparo, vindo do pouco, mas que se transformava em muito nas mãos dos dois. E essa profissão do Vô Armando rendeu muito pra gente que era criança. Lembro até hoje da nossa alegria quando ele chegava com muitas coisas. Um dos “presentes” trazidos por ele do caminhão foi inesquecível pra mim. Era um daqueles estojões que estavam na última moda, mas que em Tietê custavam caro demais para o nosso bolso, tinha que mandar vir do Paraguai ou algo assim, mas ele achou um quase novo, com muitas canetinhas e com quase todas as cores do “giz pastel” que eu nem sabia bem o que era, mas adorei usar nos meus desenhos.

E dessas coisas a gente sempre fazia nossas tardes, mexendo em roupas ou armários e outras peças que eram para doação, mas antes serviam como um passatempo divertido do nosso mundo infantil.

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