Pedalar quer dizer viver

bicicleta          Há uns dias atrás, na mesma semana, um acontecimento importante marcou a vida de duas pessoas que possuem suas vidas entrelaçadas a minha. E, mais ainda, esses fatos se coincidem apesar da diferença do momento em que cada uma delas se encontra em sua forma de existir no mundo. Minha amiga e companheira de casa, faculdade e de muitas histórias compartilhadas, deu suas primeiras pedaladas esses dias. Isso mesmo, para aqueles que já perderam o espirito da continuidade e persistência, sim, é possível, depois de “grande” aprendermos a pedalar. Quando ela chegou em casa contando como tinha sido, a sensação que eu tive instantaneamente foi a memória do dia em que meu pai me havia levado para pedalar sem rodinhas pela primeira vez. Mas, mais do que isso, eu senti um orgulho e uma felicidade que não cabiam em mim, vendo sua vontade e força em aprender aos vinte e poucos anos algo que a maioria diz ser de regra “para a infância”. Mesmo que jovem, a sensação de pertencer ao mundo adulto muitas vezes nos priva de muitas coisas que evitamos fazer por estar “crescidos”. Quando se é criança, não há medo de cair e levantar, não temos em nosso vocabulário nem no imaginário infantil aquela coisa de “será que eu posso?”. Simplesmente nos lançamos às brincadeiras, a terra, a chuva e tudo mais que parecer divertido. Isso faz da infância uma fase repleta de descobertas inusitadas e de boas histórias para contar. Tudo isso me veio à mente quando a vi chegar da sua primeira aula oficial de bicicleta, após muito tempo esperando por dar aquela pedalada sem rodinhas que tanto esperamos. Sentir que a mão do pai, mãe, irmão, quem quer que seja, se soltou de trás do banco e que agora só depende das nossas pernas, braços, cabeça e tudo mais é uma sensação incrível. E era nisso que eu pensava, transbordando de felicidade por ela, vendo que o sonho pode ser maior do que qualquer obstáculo muitas vezes imposto apenas por pensamentos pessimistas e até por pessoas que infelizmente já perderam quase tudo da criança que vive dentro de cada um. E, por falar em criança, um dia após toda essa emoção, recebo uma ligação do meu priminho de cinco anos me contando eufórico que tinha andando sem rodinhas e falando que agora não precisava mais treinar (ou seja, de alguém que o segurasse). Eu me emocionei ao telefone, num misto de saudade, alegria e de vontade de ter estado junto para compartilhar o momento de pertinho, mas só a ligação, dele que sabe da minha paixão por bicicletas já fez com que a noite de ontem ficasse mais feliz. Pode parecer uma metáfora louca, devaneio de ciclista, ou qualquer coisa do tipo, mas senti uma necessidade enorme de escrever sobre a bicicleta e sobre o fato dela nos proporcionar sentimentos únicos e históricos. Tanto para minha amiga, e sua força e determinação de começar a pedalar mais tarde que a maioria das pessoas quanto para meu pequeno primo, com seus poucos anos de existência, a bicicleta representava um grande desafio a ser superado. E, no caso dele talvez o primeiro de todos os outros que ainda enfrentará na vida. Acho até que nos dá forças, para enfrentar o que mais possa parecer difícil e complicado, mas que com o tempo, com jeito a gente vai se acostumando, e o pedal se adapta aos pés, fazendo com que os desafios diários agora estejam apenas nas distâncias maiores, nos pneus furados e até no momento em que precisamos parar e pensar se aquela ainda é a bicicleta certa, já que as pernas ficaram maiores que o próprio quadro, mais uma vez pode ser hora de enfrentar um desafio novo, com a consciência de que ele virá cheio de emoção e aprendizado. Os dois deram suas primeiras pedaladas por caminhos diferentes mesmo que eu acredite, com a mesma intensidade e sensação de ter enfrentado um grande e importante obstáculo. 

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5 comentários sobre “Pedalar quer dizer viver

  1. Van, é um prazer imenso ler esse belo texto. Curioso, mas, às vezes, o professor que lê e corrigi tantos textos de seus aluninhos , é aquele ser apoiando as mãos nos banco da bicicleta, louco para dar impulso enquanto procura garantir um certo equilíbrio.Feliz metáfora a sua! beijo.

  2. Van! a vó adorou o texto e se emocionou aqui junto comigo! A vó disse que vc derramou o coração nele, demonstrando todo amor pelo Felipe e pela Ana, e que seu coração é igual o do papai1 bjo te amo, me orgulho muito de vc!

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