Costumes & Tradições, História

Cultura popular brasileira sob o olhar folclórico do Yauaretê

O resgate e a promoção da cultura tradicional e da valorização da identidade indígena e africana em Bauru e região.

 

 “Ninguém ouviu um soluçar de dor no canto do Brasil. Um lamento triste sempre ecoou desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro e de lá cantou. Negro entoou um canto de revolta pelos ares no Quilombo dos Palmares onde se refugiou”. A música ‘Canto das três raças’, composta por Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte, sucesso na voz de Clara Nunes, poetisa sobre o país multicultural formado historicamente através da confluência entre o índio, o negro africano e o europeu. A letra da canção faz referência ao processo inicial de miscigenação do Brasil, executado por meio da repressão dos valores, crenças e costumes dos povos nativos e, posteriormente, dos africanos trazidos como escravos do outro lado do oceano Atlântico.

Apesar da tamanha opressão, manifestações da cultura indígena e africana sobreviveram ao passar do tempo. Desde palavras no vocabulário, a comida, a música, passando por fatores que determinam a personalidade do brasileiro, como gosto pela dança e pela festa, pontuam alguns dos aspectos agregados através da mescla étnica. Reflexos apontados, sobretudo no que se conhece popularmente como folclore, exibe a vivacidade cultural indígena e africana espalhada por diversos rincões do território nacional, em constante necessidade de preservação.

Na cidade de Bauru, um instituto criado no final da década de noventa, com a finalidade inicial de acolher “culturalmente” pessoas vindas do Amazonas para fazer tratamentos no Hospital do Centrinho da USP, leva no nome o significado primordial de sua origem: Yauaretê. O nome remete ao povoado localizado no município amazonense de São Gabriel da Cachoeira, lugar onde nasceu a co-fundadora Sandra Pereira, em meio ao território indígena do Alto Rio Negro, imersa em um universo cultural totalmente distinto do existente no interior de São Paulo.

Tito Pereira, o idealizador do projeto, viu nas origens de sua esposa Sandra a possibilidade de reavivar na região a valorização das manifestações folclóricas e relacionadas à cultura tradicional brasileira. “Nossa ideia inicial era criar a ‘Casa Amazonense’ para aproximar os migrantes presentes na cidade de seus costumes, como a gastronomia, as festividades, o clima, optando-se por mostrar essa identidade através das danças, mitos, lendas etc. Mas, vimos que poderíamos realizar um trabalho que fosse além do Amazonas, passando por tudo que há de cultura afro-brasileira e principalmente resgatando os tão esquecidos valores indígenas”, explica o paulista apaixonado por folclore brasileiro.

No ano de 2005, o projeto foi oficializado como instituto cultural, desde então vem promovendo na cidade de Bauru e região trabalhos que divulgam o folclore brasileiro, através de eventos com apresentação de danças tradicionais, como o Boi-Bumbá de Parintins-AM, Quadrilha e Catira, também presentes no interior de São Paulo, juntamente à moda de viola.

Tudo aquilo que é visto com frequência pela sociedade como costumes um pouco ultrapassados para as gerações de agora, o instituto se mostra capaz de executar e fazer acontecer de maneira contemporânea, como encontros direcionados à “contação” de histórias, principalmente sobre lendas indígenas e mitos da sabedoria popular.  A organização de saraus de poesia e oficinas de artesanato também se encontra entre as prioridades dos projetos do casal Sandra e Tito.

“Trabalhamos pela preservação do patrimônio material e imaterial da cultura brasileira, principalmente fazendo pesquisas e acervo de objetos voltados para as questões do negro, do índio e das populações ribeirinhas”, conta Tito. Sobre a inspiração, ele afirma ter vindo após ter tomado conhecimento de que a população indígena ribeirinha de Yauaretê estava lutando em busca de reavivar o idioma e os costumes de seus antepassados, para que eles não se perdessem. “Na mesma hora pensei em trabalhar para que os nossos costumes e as nossas origens voltassem a ser motivo de estudo, de vivência, inspiração e valor para a região” afirmou com olhar ainda sonhador, de dever parcialmente cumprido.

Entre as principais realizações do instituto, desde sua fundação, está o Festival do Folclore, a Cavalgada de Tropeiros, a Festa Junina Comunitária da Comunidade Bento Cruz, o Sarau Poético “Ivone Francisco de Souza”, Oficina de resgate da tradição oral, o “Vozes da Lenda”, o Projeto “Culturando Bauru”, o Projeto Cultural de Proteção Ambiental (utilizando a figura do Saci), o Projeto de Revitalização da Cultura Caipira e, a cada dois anos, o Fórum Nacional Interdisciplinar Cultura-Folclore, em parceria com a USC.

O instituto foi contemplado no ano de 2010, pelo edital de “Pontos de Cultura”, do Ministério da Cultura, e desde então desenvolve o projeto “Identidade Cultural de Bauru e Região”, abrangendo aproximadamente 40 cidades. O trabalho realizado após esse reconhecimento, esclarece Tito, consiste em conhecer, identificar, registrar e estimular a formação de uma rede sociocultural na sua área de atuação, objetivando, através do levantamento de dados, o mapeamento da região para estabelecer uma rede sistematizada de trocas de experiências, informações e outros.

Muito além do Saci-Pererê

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“Folclore é tudo aquilo que estabelece a nossa identidade e, principalmente, o que valorizamos para que não se perca. Representa a normatização da cultura popular, transformando-a em tradição”, explica Antônio Walter Ribeiro Júnior, professor de antropologia da USC. De acordo com o especialista, a palavra tem seu significado relacionado às mais diversas formas de manifestação popular, como os saberes, os costumes, as tradições e tudo mais produzido e valorizado pelo povo e seus possíveis desdobramentos na sociedade.

Embora a palavra atualmente tenha caído não em desuso, mas sim em um uso incorreto e que diminui sua relevância, a proposta do Yauaretê vem na contra partida do senso comum, mostrando que o folclore de fato deve ser entendido e valorizado como algo abrangente e fundamental para o resgate da identidade e principalmente para a composição do que se conhece por cultura brasileira.

O violeiro e pesquisador da cultura paulista, Noel Andrade, define a diversidade cultural brasileira como algo inexplicável e único, “A gente vê na cara dos brasileiros que cada um veio de um canto diferente e eu acredito que nossa mistura proporciona mais riqueza ainda, tanto relacionada às pessoas quanto à cultura que se produz aqui”, aponta o músico. E ainda completa, “A gente não sabe se descendemos de índio ou de negros ou portugueses, por exemplo, mas chega uma hora em que a alma da gente pede.” Em sua opinião, a cultura e o folclore popular estão no que se escuta, na roupa que se veste, naquilo que se escreve, na alimentação e, principalmente, no momento em que isso tudo passa a fazer parte do dia-a-dia e da essência do ser brasileiro.

 

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Sobre Vanessa Cancian

Meu nome é Vanessa. Eu sou brasileira. Ainda que isso signifique dizer que eu sou muitas coisas, e ao mesmo tempo que vim de vários lugares. E é isso que eu quero mostrar nesse blog. Quero tentar ajudar os que não conhecem a "achar" um Brasil diferente e a se apaixonar por ele em suas mais diversas formas e cores.

Discussão

2 comentários sobre “Cultura popular brasileira sob o olhar folclórico do Yauaretê

  1. Querida Vanessa, bom dia!

    Muito nos emocionou a sua publicação. Você conseguiu mostrar e demonstrar através de suas palavras (texto) e sensibilidade jornalistíca, todo o nosso trabalho. Trabalho esse – assim como o seu trabalho – realizado com perseverança, determinação e amor a Cultura Popular Brasileira. Parabéns Vanessa!

    Publicado por Tito Pereira | abril 22, 2013, 1:59 pm
  2. Uhuuuuul! Muito bom, Van!! Gostei muito desse dia!!!

    Publicado por Giovanna Falchetto | abril 22, 2013, 11:47 pm

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